Ponto de Fuga: Aventura dos jogos e aventura da vida
março 3, 2016
Como jogador inveterado de RPGs digitais, sempre nutri a vontade e a curiosidade por criaturas fantásticas, locais misteriosos, magias, conjurações fabulosas e ambientes que desafiam a Física de nossa realidade. Dentre todas estas peculiaridades dos mundos fantásticos o que mais me fascinava, e ainda o faz, é a aventura que a heroína travará até o seu triunfante retorno com o elixir. Digo heroína porque sempre preferi jogar com personagens femininas nos RPGs por simplesmente serem incomuns e inesperadas nesse tipo de espaço brutal e historicamente preenchido pelos conceitos de masculinidade.
O chamado à aventura e o decorrer da própria é algo fora da nossa rotina e realidade. Na vida de nosso avatar virtual podemos correr pelos campos, montar criaturas aladas, matar dragões e wyverns, saquear cidades e destruir exércitos inteiros com o apertar dos botões, digo, com o manejar da sua arma.
Mas por que é tão divertido e gratificante se aventurar em uma terra que é cheia de perigos, mistérios, traições, mas que você conhece no plano dos detalhes? Um pouco além, por que é tão complicado transpor esta vontade de se aventurar para a vida carnal e palpável?

Desce um Wyvern aí?
Esse tema não é inédito e já foi debatido inúmeras vezes por sites e congressos mundo à fora. Uma conclusão comum é a diferença gritante entre os mundos, possibilidades, controle e as próprias leis que nos prendem no cotidiano, afinal, qual aventura poderia existir dentro do escritório com suas pilhas intermináveis de trabalho por fazer?!
Uma diferença perceptível entre jogos e realidade é uma certa ausência da rotina nas aventuras. Por mais que exista aquela quest de matar tantos monstros ou recolher tantos itens, o jogo nunca, salvo as exceções, irá te obrigar a voltar lá todos os dias para concluir a tarefa novamente. Mas por que nós devemos seguir as rotinas todo santo dia?!
Voltemos um pouco no tempo, para o século XVIII, com a presença da figura de Denis Diderot, filósofo francês que junto de Adam Smith, apesar de serem controversos, moldaram alguns dos métodos do pensar na sociedade moderna ocidental. Diderot defendia a prática da rotina no trabalho, que os ofícios repetitivos e diários, os hábitos, levavam o ser humano a uma vida segura e sob controle, sua finalidade era o enriquecimento e a iluminação do conhecimento em toda a sociedade, e isso seria uma forma de alcançar a proteção dos males exteriores e da dúvida que poderia levar ao ensandecimento de uma nação. Richard Senett, historiador norte-americano, reforça a existência desta visão ao afirmar que, ao formular esse pensamento “pró-rotina”, Diderot e seus seguidores acreditavam que: “Uma vida de impulsos momentâneos, de ações de curto prazo, destituída de rotinas sustentáveis, uma vida sem hábitos, é imaginar, de fato, uma existência sem sentido.”

“Ah Samuel, se eu não trabalhar eu não ponho a comida na mesa.” “Quem vai pagar minha viagem pra eu me aventurar por aí?” “Até o Geralt tem uma rotina de matar monstros para sobreviver.” Estes são alguns pensamentos comuns e corriqueiros para explicar a nossa necessidade da força do hábito em nossa sociedade. Talvez a submissão à rotina seja o antônimo de liberdade como aponta Zygmunt Baumann em seu livro Modernidade Líquida, e que o alcançar da liberdade traga ao ser humano uma angústia e agonia sem fim.
“Padrões e rotinas impostos por pressões sociais condensadas poupam essa agonia aos homens; graças à monotonia e à regularidade de modos de conduta recomendados, para os quais foram treinados e a que podem ser obrigados, os homens sabem como proceder na maior parte do tempo e raramente se encontram em situações sem sinalização, aquelas situações em que as decisões devem ser tomadas com a própria responsabilidade e sem o conhecimento tranquilizante de suas consequências, fazendo com que cada movimento seja impregnado de riscos difíceis de calcular.”
Talvez essa pressão social-econômica e o temor das consequências, de não saber o que fazer no próximo dia, nos mantenham atados junto ao nosso emprego, ao tráfego, às reuniões intermináveis, aos jornais televisivos, a conversa infrutífera na internet e, por que não, ao ato de jogar.
Joseph Campbell em seu livro “O herói de mil faces” apresenta-nos aos conceitos e a estrutura do que conhecemos por Jornada do Herói. Um modelo de aventura baseado em arquétipos que irão se desenvolver em quatro grandes atos. Logo no Chamado à Aventura, primeiro ato, o personagem irá passar por sua convocação, poderá recusar, mas ao fim de suas dúvidas irá aceitar. Campbell constrói de maneira lírica e magistral esta fase do(a) herói(na):
“Mas, pequeno ou grande, e pouco importando o estágio ou grau da vida, o chamado sempre descerra as cortinas de um mistério de transfiguração – um ritual, ou momento de passagem espiritual que, quando completo, equivale a uma morte seguida de um nascimento. O horizonte familiar da vida foi ultrapassado; os velhos conceitos, ideais e padrões emocionais, já não são adequados; está próximo o momento da passagem por um limiar.”

Esta ultrapassagem do Horizonte Familiar, a quebra de conceitos pré-estabelecidos e a própria morte figurada do herói para seu glorioso renascer em um ser novo e puro, sugere que a partir deste momento ele terá novos paradigmas, ideias, vida e a pretensa liberdade. Para nós, aparenta ser justamente o momento no qual sucumbimos ou somos terminantemente barrados.
Como um grande filtro invisível, que ora é posto de forma natural, ora é forjado pela dinâmica socioeconômica de maneira artificial, o Horizonte Familiar nos impede, em diversas ocasiões, de não aceitarmos este chamado de uma aventura no mundo em que vivemos justamente porque estamos atados as ligações sociais, políticas e econômicas ou porque temos um conceito de liberdade subjetivo que já nos basta. A jornada, portanto, não se configura crucial em seu ponto final, mas sim no desafio a si, e ao resto conhecido, no ponto de partida, na saída do “Mundo Ordinário”, afinal. Trazendo de volta para os jogos, já pensou se Nathan Drake ou capitão Sheppard nunca tivessem se interessado em caçar tesouros ou defender a Normandy?? Esses jogos poderiam sequer ver a luz da existência.
Acredito que essa “vida de liberdade.” que encontramos nos jogos, sirva, dentre várias outras aplicações, de escape da rotina e de meio a satisfazer nosso desejo de viver ao nosso modo, pautado em um ritmo de diversão, autonomia e responsabilidade individual e singular, provavelmente fora dos padrões aceitos socialmente. Se não podemos satisfazê-los de forma orgânica, temos na diversão virtual essa ilusão de satisfação controlada e saudável.
De maneira alguma estou afirmando que devemos queimar nossos consoles e PCs, xingar nossos chefes, pedir demissão e virar um hippie comunista, provavelmente essas não sejam as únicas maneiras de transpor o Horizonte Familiar de Campbell. Somos seres construídos por nossa sociedade e, por ela, devemos viver de forma balanceada e consciente das ferramentas a nós dispostas para entender o mundo ao nosso redor.
Levanto algumas questões subjetivas ao leitor: Você tem o desejo de viver alguma aventura? Se sim, em qual escala? A liberdade é atingida somente pela negação das estruturas hierárquicas? Sair da rotina faz-lhe bem? E por fim, existe um modelo de consumo para “degustar” a liberdade?
Samuel Levi
Formação em Mídias Digitais, pesquisador, leitor e integrante da UCEG
“Um carinha que lê umas coisas e escreve outras”



