Danilo Miranda [1943-2023], do Sesc SP, sempre apoiou games como cultura digital
outubro 30, 2023Faleceu na noite do último dia 29 de outubro o Diretor Regional do Sesc SP, Danilo Santos de Miranda.
Sua contribuição para o universo da cultura não pode ser medido, considerando seus quase 40 anos à frente do Sesc SP, instituição que moldou muito do pensamento contemporâneo cultural, instigando o pensamento crítico em todas as áreas do saber. O “Professor Danilo”, como era carinhosamente denominado pelas pessoas próximas, era frequentemente apontado como “verdadeiro ministro da cultura do pais”, título que modestamente sempre recusou.
Também no campo dos jogos digitais encontram-se as suas impressões, sempre com um olhar favorável em relação ao potencial educativo, social e transformador dessa cultura para a sociedade.
No início dos anos 2000, a instituição lançava o programa Internet Livre, que oferecia acesso à rede digital por meio de computadores de alta performance em diversas unidades da capital e interior de São Paulo, incluindo vivências com programação, passeios virtuais e dinâmicas lúdicas com jogos digitais. Entre as muitas iniciativas gestadas pelo programa, é possível rememorar atividades ludicas com jogos, a exemplo do campeonato de futebol virtual, em 2002, no Sesc Pompéia e, no mesmo ano, a realização de TekGenese, um live action de RPG com temática distópica, que reuniu 40 jovens participantes no espaço do programa de cultura digital.
Uma análise mais detida do foco da entidade para a seara digital, no entanto, aponta que, já em 1983, poucos meses antes do sociólogo assumir a direção regional, a instituição já indicava um olhar atento para a cultura dos bits. Documento interno avaliava a possibilidade de realização de ações para o “Desenvolvimento de Atividades de Lazer através da utilização do Computador”. O estudo preliminar se propunha a “reduzir o analfabetismo informático” por meio do “atendimento à clientela [com] cursos de iniciação à linguagem do computador e videojogos”.
“Estender o uso lúdico de computadores às camadas de menor poder aquisitivo é praticar uma política de democratização cultural”, afirma o texto presente no projeto de implantação da iniciativa.
EM 2004, durante a Mostra Sesc de Artes, foi realizada na entidade a 1ª Mostra de Games Brasileiros, com curadoria de Alê McHaddo e produção da equipe gestora do evento. “Dividida em categorias de acordo com as mídias relacionadas, cd-rom, internet, telefonia e outros, a Mostra reúne games desenvolvidos com especial enfoque na cultura brasileira”, informava o material de divulgação lançado para a Mostra de Artes, sobre o projeto de games. Ações culturais e formativas da mostra de games foram realizadas em unidades diversas, como Belenzinho, Ipiranga, Itaquera, Pompeia e Interlagos.
No ano seguinte, a instituição daria um passo decisivo no apoio aos jogos digitais como referencial de cultura, a partir da realização do Game_Cultura Festival de Jogos Eletrônicos, projeto idealizado pelo ‘Dr. em Games’ Roger Tavares e produzido pelos profissionais do Sesc Pompeia, que aconteceu entre os dias 08 a 30 de janeiro com inúmeras atividades.
O Festival Game_Gultura circulou até 2009 por unidades como Araraquara, Bauru, Campinas e Santos, adotando novos recortes. Todas essas ações foram sempre chanceladas pelo Diretor Regional, que via os games para muito além do mero entretenimento.
Danilo também chegou a comentar sobre o processo educativo informal presente na troca entre frequentadores do Sesc, a exemplo desse relato para a revista Veja:
“O legado do Sesc é inclusão e diversidade, e tenho até um exemplo para dar: nos anos 2000, iniciamos o programa Internet Livre, quando a tecnologia não era tão ampla como hoje. Ele facilitava a comunicação, ajudava as pessoas a mandarem currículos etc, e às vezes um garotinho entrava na sala para jogar games, enquanto ao seu lado estava um executivo de uma multinacional. Isso aconteceu no Sesc, da mesma forma como jovens já ensinaram adultos a usar um computador.”
Também na carta de princípios culturais do Sesc SP, a instituição estabelece como prática fundamental “incentivar o fortalecimento da indústria cultural nacional e das indústria criativas adjacentes às convencionais (moda, games, gastronomia, entre outros).”
Com a atenção voltada ao aperfeiçoamento do ser humano, buscando o que de melhor se pode extrair de nossa história e das possibilidades que o futuro oferece, Danilo Miranda conduziu o Sesc SP para uma ação dinâmica, integradora e conectada.
Imagem: Danilo Miranda – tratamento digital a partir de foto de Adauto Perin

Colaborador do Quebrando o Controle e auto-declarado Extreme-Geek e D&D player, o profissional atua há 15 anos no jornalismo de games, com passagens pelos veículos Portal GeeK, Game Cultura, GameStorming, Rádio Geek e Drops de Jogos, entre outros.




