Porque o mundo precisa de jogadores amadores. | Why We Play

maio 6, 2022 0 Por Mário Dos Martins Coelho Bessa

Porque o mundo precisa de jogadores amadores. Colocando em uma perspectiva gamistia o artigo O Jogo Perfeito, de G. K. Chesterton.

Nos últimos tempos descobri, tardiamente, a obra de Gilbert Keith “G.K.” Chesterton, brilhante ensaísta, romancista e jornalista inglês, conhecido como “O Príncipe do Paradoxo” que, certamente, deveria ter sido incluído em minha biblioteca há muito mais tempo.

G. k. Chesterton gostava de croquet, mas, pelo visto, não jogava muito bem.

Deixando minhas lamentações literárias e educacionais de lado (afinal você não é obrigado a ficar lendo algo fora do assunto proposto nesta coluna, apesar de ela ser absolutamente autoral e representar um ponto de vista particular deste que vos escreve), esses dias estava lendo uma das mais deliciosas obras do impressionante G. K. (vou chamar ele assim nesse artigo para soar mais moderninho), Tremendas Trivialidades (que você encontra em qualquer livraria de respeito).

Neste livro (Tremendas Trivialidades, que é uma compilação de crônicas publicadas no jornal Daily News), me chamou a atenção o artigo intitulado O Jogo Perfeito, que diz respeito à necessidade da existência de maus jogadores de croquet (se ficou curioso, dá uma pausa, abre outra guia no navegador, vê o que é croquet, e volta pra cá em seguida).

Como funciona o Croquet. Ainda não entendi, mas prometo que vou ver um vídeo tutorial e assistir uma masterclass gratuita

Aí você me pergunta: por que cargas d’água esse cara tá falando de um ensaísta inglês, que morreu há quase 100 anos, quando não existia nem videogame, e começa falando de um jogo que eu nunca ouvi falar (o tal do croquet)?

Bem, é exatamente neste ponto que a obra de grandes autores é torna atemporal. O argumento é universal e é isso que tentarei demonstrar aqui.

Chesterton, ou melhor. G. K., defende em sua crônica que, para que o croquet exista e seja um jogo amado por muitos (pelo menos na Grã-Bretanha e suas colônias), é necessário que existam os maus jogadores, os amadores.

Sua tese parte de uma premissa muito simples: se só existissem jogadores exímios, que não errassem em hipótese alguma, qual seria a graça do jogo? O que te faria jogar um jogo em que você acerta todas as jogadas, todas as vezes, sem nunca errar? Onde estaria o desafio? Valeria a pena jogar sem errar, sem puder ser derrotado?

Depois, o querido G. K. complementa: da mesma forma que os grandes jogadores de croquet (mas se você chegou até aqui, já notou que pode trocar o taco, as bolas e arcos do croquet por um controle, um console e uma TV), também precisamos dos não tão bons jogadores. Dos que precisam se esforçar para aprender as jogadas, a pensar na estratégia de como vencer um adversário, de se superar a cada jogada.

Os que jogam bem, já não amam o jogo em si. No dizer de G. K., amam a glória das vitórias, os aplausos. Buscam nada mais do que fama, reconhecimento e dinheiro. Nesses atributos está o seu interesse. Não mais no amor ao jogo propriamente dito.

E o arremate é que é o mais sensacional: é exatamente nos jogadores amadores, que nós encontramos a verdadeira paixão por um jogo. São os amadores que, ao gostarem muito de um jogo, vão se esforçar para jogar melhor, por puro e simples prazer.

Pra você que chegou até aqui e não teve curiosidade de ir ver do que se tratava o jogo de crockett, eis uma breve ilustração

São esses jogadores (e eu preciso me incluir entre eles em vários jogos que me atrevo a jogar), que perdem mal acertam um chute a gol, batem nas corridas, morrem com headshots bisonhos, dentre outras gafes, mas que não desistem facilmente, que sustentam o amor por um game (viu, agora troquei o croquet por game, mas você pode aplicar pra qualquer jogo, eletrônico, de tabuleiro, esporte….)!

Por mais que os grandes jogadores sejam importantes, movam multidões, ganhem muito dinheiro, isso não aconteceria se os que não são tão bons assim, não amassem um jogo, pelo simples fato de, se não existisse uma legião de fãs, a relevância e alcance do jogo e de seus ídolos, seria infinitamente menor. Assim como seus ganhos e suas famas. Apesar de terem tido prazer antes de se tornarem bem-sucedidos.

Encerro transcrevendo um trecho do artigo de G. K. que sintetiza toda a questão:

“O bom pintor tem habilidade. É o mau pintor que ama sua arte. O bom músico ama ser um músico, o mau músico ama a música. É com esta paixão pura e sem esperança que adoro o croquet. Amo o jogo em si.”

Com essa, vou voltar para mais uma partidinha de Gran Turismo. Ou de Halo. Ou qualquer outra coisa. Talvez até de croquet não digital (sim, existem videogames de croquet!)

Sim, existe videogame de croquet. Este é o jogo que está no Game Party 3 do Nintendo Wii.

Até a próxima!