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Está chegando a segunda publicação da coluna Vem pra Mesa, um espaço dentro site da UCEG dedicado exclusivamente aos jogos de mesa. Para os que estão tomando conhecimento dessa nova empreitada saibam, que a Vem pra Mesa é uma coluna quinzenal que será publicada em uma terça-feira. Na frente dessa coluna teremos dois escritores que irão apresentar o maravilhoso mundo dos Board Games, que serão a Alana Herculano, que fez a introdução que pode ser conferida aqui, e este que vos fala, Lucas Silva.

Para o conteúdo de hoje vou traçar minha escrita partindo de um dos tópicos apontados pela Alana como uma das vantagens que orbitam os jogos de tabuleiro, a socialização. Esse tópico é muito intrigante e me impulsionou a observar e estudar um pouco sobre a construção, na sociedade contemporânea, de um novo cenário de relações interpessoais. Dessa análise poderemos entender como os jogos de mesa são meios que estão propensos a seguir o sentido oposto desse fluxo de relações.

Segundo o sociólogo Zygmunt Bauman, estamos vivendo em uma sociedade líquida, ou seja, nossas relações sociais são tão palpáveis quanto a água que sai de uma torneira, portanto, vivemos mergulhados na inconstância, nas incertezas e nos individualismos. Em seu livro Amor Líquido, Bauman busca analisar os laços de afinidade e o quanto a tecnologia, que surgiu com o discurso de ser um elemento facilitador do processo de estreitamento desses laços, está tornando-os rasos e descartáveis.

As relações baseadas na responsabilidade mútua entre os indivíduos cedem acento para a: “Relação de conexão” e aos “Relacionamentos de bolso“. Deixamos de construir ou de nos entendermos com os diferentes para poder vivenciar momentos efêmeros com indivíduos que têm pontos em comum e, quando os pontos iguais somem, forçamos a desconexão com o outro indivíduo sem preocupações.

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Dentro do universo do entretenimento percebemos que os jogos analógicos são um dos poucos meios que está percorrendo outro sentido, com algumas ressalvas. Devido a sua estrutura, em cada partida somos colocados de frente com elementos “primitivos”, os quais há muito foram esquecidos por alguns, como a utilização da linguagem oral, a busca pelo o olhar no olho, a tentativa de entender a mente do outro pelas suas ações ou a tentativa de deduzi-lo pela sua linguagem corporal.

Para Bauman as pessoas estão descartando as relações de afinidade sem nem iniciá-las, e os jogos de mesa nos levam a experimentar essa etapa de forma física, assim como os “antigos” faziam. Até pouco tempo, para conhecer um novo amigo ou tentar um relacionamento amoroso, os indivíduos saíam de sua bolha de conforto para encarar um ambiente neutro e nele buscavam trocar ideias de forma direta e visual. Hoje, as pessoas se isolam e creem que isso é o normal, e por várias vezes me deparo com frases semelhantes a essa:

“Por que vou sair de casa para jogar com outras pessoas? Basta ligar meu videogame e jogar online ou sozinho.”

Os board/card games são essencialmente jogos sociais, diferente dos joguinhos do Facebook. É quase impossível jogar sem pessoas (ressalva para a existência de jogos feitos para jogar sozinho, mas que são a minoria). Nós temos que construir uma mesa e para tal precisamos conversar com as pessoas, sair de nossas fortalezas, gastar tempo sentado jogando, trocando olhares, ideias, percebendo as características únicas de cada pessoa que está à mesa. Essa análise e compreensão nos levam a outro ponto presente no discurso de Bauman, que é entender o semelhante como ele é e não como ele se mostra, e depois desse entendimento sabermos conviver sem culpá-los pelas nossas frustrações e fracassos.

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As mesas dos party game, ameritrash e até dos medium euro games (conceitos que explicaremos futuramente) possibilitam aos seus componentes esse retorno à raiz e consequentemente proporciona uma quebra com o caótico/comum visto nas relações de liquidez social. Os jogos de tabuleiro proporcionam a repetição dessas mesas, o entendimento das variedades de jogadores e, portanto, a busca por novas mesas e o fortalecimento das afinidades, abrindo espaço para um patamar ainda maior: a formação das relações de parentesco. Notamos a real importância que as pessoas têm na construção do nosso caráter e, dependendo do jogador, contribuímos para elaboração de um mundo mais tolerante.

Na próxima coluna voltamos com mais conteúdos informativos sobre os jogos de tabuleiro, deixando de lado a análise social, ou não.


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Lucas Silva
Formado em História, leitor de ficção e cara dos bastidores
‘Saber que nossas crenças são incertas é a unica maneira de viver bem’