Seja a resistência ou a opressão

Seja a resistência ou a opressão em The Resistance

Fala galera! O texto que lerão a seguir marcará o retorno da coluna “VEM PRA MESA”. Ano passado, textos abordaram temáticas generalizantes e se delimitaram a analisar as tipificações de jogos e as interações sociais que os “boards” proporcionam.

Hoje falaremos sobre The Resistance, um jogo produzido pela Indie Games e distribuído no Brasil pela Galápagos Jogos. O board é um partygame (jogos de festa), o que significa dizer que suas mecânicas são de fácil aprendizagem e as partidas de baixa duração. É uma ferramenta lúdica perfeita para jogar com a família em ocasiões de festa (não nos responsabilizamos por qualquer racha familiar causado).

Assim como o nome já elucida, The Resistance nos transporta para a condição de revolucionários que estão conspirando para derrubar um governo autoritário. Entre os membros da resistência existem espiões do governo, e o objetivo central do jogo está na capacidade dos revolucionários em desvendar quem são os infiltrados, que poderão blefar e continuar a se passar por lutadores da resistência.

Jogos como The Resistance seguem a cartilha de outras mídias, é notória sua inspiração em filmes famosos como os da série Star Wars e até em quadrinhos como o V de Vingança. A temática do jogo e das mídias citadas traçam um paralelo acerca da relação entre governos autoritários e a capacidade de articulação daqueles que se postam contrários ao “Império”.

Esse é o deck de The Resistance

Esse é o deck de The Resistance

No título do texto cito a Escala Orwelliana, tal escala pontua o nível de espionagem das leis implantadas no Reino Unido e foi criada baseada no livro 1984 de George Orwell. A obra é até hoje um dos maiores sucessos da literatura mundial, e talvez seja uma das análises mais lúcidas a respeito da formação de Estados totalitários que têm como característica a máxima vigilância da vida dos cidadãos em várias instâncias. Tudo para que não fujam das rédeas ideológicas implantadas pelo Estado.

A mecânica do jogo demonstra a vigilância excessiva do Estado, e pode ser percebida na maneira como se escolhem os personagens. As cartas (espiões e revolucionários) são distribuídas de maneria aleatória e secreta entre os participantes do jogo. Logo após a distribuição das cartas, todos fecham os olhos e apenas aqueles com cartas de infiltrados abrem os olhos, depois voltam a fechar os olhos e todos abrem ao mesmo tempo para dar inicio a partida.

As cartas em azul são da resistência e as vermelhas são cartas de espiões.

As cartas em azul são da resistência e as vermelhas são de espiões.

Como percebemos os espiões tem o conhecimento da identidade de todos os jogadores, contudo, os resistentes não os conhecem e o grande desafio do jogo é perceber, através das ações das rodadas seguintes, os comportamentos suspeitos que possam indicar possíveis traições. Esse sentimento de desconfiança é algo incitado por ações políticas de coerção, o medo de retaliação por subverter a ordem mantêm as pessoas obedientes ao Estado e ainda as colocam na posição de “espiões” civis pelo Estado, algo muito parecido ao que fazia o tribunal da Inquisição na idade média.

Para as considerações finais é importante ressaltar a capacidade de imersão narrativa que o jogo propõe, dentre os jogos do mesmo molde, como o Mafia de Cuba. The Resistance é um dos melhores do gênero.

Ficha Técnica:

Ano de publicação: 2009

Nº de jogadores: 5 a 10

Tempo de jogo: 30 mins

Idade Sugerida: 13+

Expansões: Merlin/Assassin Promo (2013) /Hidden Agenda (2013) / Intenção Hostil (2014)

Fonte: http://ludopedia.com.br/jogo/the-resistance

Link para a compra do jogo: https://loja.galapagosjogos.com.br/produtos/the-resistance

*Curiosidade: O livro 1984  foi escrito em 1948 pro George Orwell, se passa em um país no futuro, e na verdade criticava a ascensão de governos totalitaristas da época. Na obra de Orwell, o governo comandado pelo Grande Irmão possui um sistema de câmeras para observar as pessoas 24 horas (ideia que inspirou o nome do Reality Show Big Brother). Como já observado a vigilância – ou a sensação de ser observado – cumpre o papel de coerção social, se pensarmos isso no board podemos linkar com o fato dos espiões saberem as identidades de todos. Por conta disso é bem mais difícil para a Resistência completar as missões e ganhar o jogo. As questões sociais e a dificuldade de vitória da Revolução implicava na falta de recursos para peitar a máquina totalitária.


10406431_702036486561645_8899101243727556583_nSávyo Enrico
Professor de História
“Vim pra sabotar teu raciocínio”