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Introdução

Estudar um fato existente, um acontecimento não é fácil. A proximidade do observador do objeto de sua análise é sempre uma preocupação, na medida em que pode limitar o alcance da visão necessária para se entender a abrangência e a importância do que se está estudando.

Vou tentar me fazer entender no que diz respeito aos jogos eletrônicos (vale o mesmo para livros, filmes, discos, séries, etc.). Muitas vezes, no calor do lançamento, cravamos: “este é um dos melhores jogos que já joguei. É um dos melhores da história, com toda certeza!”. Quem nunca disse isso?

Com um passar de alguns meses, já não damos a mesma importância àquele jogo que considerávamos o maioral. Ele acaba não ecoando na história. Não sendo relevante quanto nós achávamos que ele era no momento em que foi lançado. Simples assim. Quem nunca passou por isso?

Ocorre que o contrário, pode ser uma verdade.  Podemos não dar tanto valor a um jogo (volto a repetir, o mesmo vale para livros, filmes, discos etc.) quando o mesmo foi lançado, mas sua relevância é tamanha, que ecoa ao longo dos anos, das décadas.

Exatamente por isso, entendo que o sucesso de um jogo não pode ser medido tão somente em quantidade de cópias ou o hype logo após seu lançamento. Devem ser considerados, também, seu alcance, inovações, impacto nas gerações vindouras de desenvolvedores e jogadores. Se hoje você joga Pong (aquele simples jogo com duas barrinhas e uma “bola” simulando uma partida de tênis) e acha simplório e enfadonho, saiba que, sem ele, você não estaria jogando hoje God of War 4 em altíssima resolução em sua TV Ultra HD com Home Theather 7.1.

Simples assim.

O jogo Yakuza é tido como um ‘sucessor espiritual’ de shenmue, seu diretor Toshihiro Nagoshi trabalhou como supervisor em Shenmue e trouxe influências para sua obra

E é exatamente sobre inovações, relevância que falamos neste artigo. Tudo concentrado no jogo objeto deste artigo: Shenmue. A obra-prima de Yu Suzuki, um dos mais importantes produtores de jogos de todos os tempos e cujas criações reverberam décadas após suas criações (Para quem não sabe, Suzuki é simplesmente o principal produtor de jogos da Sega, no auge desta empresa. Criou, dentre outros, Virtua Fighter, Virtua Racing, Hang-On, Outrun, Space Harrier, After Burner e Daytona USA).

O Desenvolvimento

Ainda durante o período de vendas do Sega Saturn, em meados da década de 1990, Yu Suzuki começou a produzir Shenmue. O jogo foi realocado para a plataforma seguinte da Sega, o Dreamcast. A ideia original era a de misturar Streets of Rage com Virtua Fighter, para criar um RPG de luta, uma ideia audaciosa para a época. Entretanto, com o Dreamcast já em estado gestacional, e sua ampla melhoria em termos de hardware frente o Saturn, foi dado um novo viés à história do jogo. A maior capacidade do novo console, possibilitou que Suzuki colocasse em prática o máximo de suas ideias.

Assim, fomos brindados com um jogo completamente diferente do que existia até então. Para nos situarmos no tempo e espaço, Shenmue foi lançado no Japão no fim de 1999 e em 2000 no ocidente. Nunca, até então, um único jogo apresentava uma variedade tão grande de elementos que, antes eram separados em gêneros estanques, com poucas variações de jogabilidade em um único título. Via de regra, os jogos se dividiam em beat ‘n up, adventure, RPG, luta, esportes e alguns outros, que pouco ou nunca se integravam em um único produto.

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Em Shenmue nada acontece por acaso, para melhorar seu combate o jogador deveria treinar e melhorar suas técnicas de combate, não só subir de level e apertar botões aleatórios.

Suzuki teve a ousadia e a competência de juntar diversos desses gêneros em uma única obra: Shenmue, que possui elementos de RPG, ação, aventura e luta. Tudo em 3D, com ambiente aberto de uma cidade inteira, exploração de praticamente todos os lugares disponíveis para se ir e, ainda, interação com itens de cenário (não tem como você não perder um bom tempo nas lojas de conveniência e nos fliperamas espalhados pela cidade virtual) e ambiente.

Com mais um detalhe inovador para a época: o jogo se passava em tempo real (inclusive a passagem do dia para a tarde e noite, além de mudanças do clima), muito embora se tratasse de um relógio acelerado. Era tanta coisa nova em um só jogo, que Shenmue não se enquadrava em nenhum gênero de jogo até então existente. Tanto que se criou, imediatamente, um novo termo para tentar enquadrá-lo: FREE (Full Reactive Eyes Entertainment). Hoje, podemos classificá-lo como um action-adventure.

Além disso, Suzuki encaixou no jogo uma história primorosa (de premissa simples mas muito bem desenvolvida), tudo com aspectos técnicos de jogabilidade e gráficos absurdamente lindos para para a época, com o tcham de uma trilha sonora impecável. Criou, portanto, um leviatã de seu tempo. Um jogo monstruoso com o maior orçamento de até então (cerca 50 milhões de dólares à época, em 1999). Resultado imediato na época do lançamento: consagração na crítica especializada. E um fracasso comercial, que não foi capaz de recuperar nem mesmo o orçamento.

Por que? Porquê Shenmue não é para todos. Não é um jogo de ação rápida, dinâmico. Requer paciência e longas sessões de jogo. Dedicação. Alguns podem encontrá-lo às vezes, mas se der a oportunidade certa, pode ser uma experiência envolvente, única. Acreditem: não é exagero.

Sinopse (bem curtinha) da história

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Da esquerda para direita temos: Iwao Hazuki; Ryo Hazuki e Lan Di

A história de Shenmue tem uma premissa verdadeiramente simples, embora executada com perfeição. O personagem principal, Ryo Hazuki, presencia o assassinato de seu pai, Iwao Hazuki, por um mafioso chinês chamado Lan Di, que, também, rouba o Espelho do Dragão. Em seguida, Ryo parte em busca de vingança e descobrir as razões de sua morte. Tudo, como dito, por meio de uma jogabilidade até então inédita, em um jogo tecnicamente perfeito em termos gráficos, de game design, trama e trilha sonora.

Shenmue, teve uma continuação, lançada para Dreamcast (em 2001 no Japão e em 2002 no ocidente) e posteriormente disponibilizada para Xbox (também em 2002). Shenmue 2 continua a contar a história de Ryo em busca de respostas e da vingança de seu pai, tudo com a mesma maestria de seu antecessor.

Vou me abster a contar qualquer detalhe da trama dos dois jogos (que são, literalmente, a um a continuação da história do outro) para não tirar a graça. Spoiler em um jogo como esse é um verdadeiro desrespeito ao jogador mais atento e dedicado (quem quiser maiores detalhes, aguarde nosso review da edição remasterizada para PS4, em breve em nosso site).

Ocorre que, após a segunda parte, nunca tivemos acesso ao final da história. A Sega parou de fabricar o Dreamcast. Os jogos não foram um sucesso comercial à época. E a terceira parte foi engavetada durante anos, muito embora sempre surgissem rumores de lançamento da continuação. A frustração para quem jogou as aventuras de Ryo Hazuki é similar à de quem nunca ficou sabendo o final de Caverna do Dragão, por exemplo. Não consigo encontrar paralelo melhor. E os fãs, que são fiéis e não são poucos, nunca se conformaram, jamais esqueceram que precisava ser lançada a parte 3 para contar o desfecho da saga.

Possivelmente por isso, quando, durante a E3 de 2015, Yu Suzuki em pessoa anunciou Shenmue 3, e que o projeto seria todo financiado por meio de doações dos fãs. Pasmem, em apenas 11 horas, a meta de 2 milhões de dólares foi alcançada em apenas 11 horas após o lançamento. Vejam a reação da turma da GT Live, transmitindo a E3 e sendo surpreendidos com Shenmue 3:

Logo em seguida, a Sony anunciou que também contribuiria com o financiamento do jogo, garantindo, por consequência, sua exclusividade para o PlayStation 4, que será lançada em 27 de agosto de 2018.

Legado

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Então senhores, finalizo com o seguinte pensamento: se você gosta de videogames, em especial dos jogos modernos complexos, longos, com mundos abertos e diversas coisas para se fazer (como a série GTA,  Horizon Zero Down, Red Dead Redemption, dentre outros), agradeça a um Sr. chamado Yu Suzuki (e à Sega, por ter topado o desafio tão ambicioso), e à sua obra prima Shenmue. Sem ele, possivelmente os jogos de hoje não seriam como de fato são. Ou, no mínimo, demorariam mais alguns muitos anos para terem evoluído ao patamar atual.

Post Script

Quem não tem Dreamcast, confiram a edição remasterizada de Shenmue 1 e 2, lançada em 23/08/2018, para PS4 e Xbox. São jogos obrigatórios! Mas lembrem-se: foram lançados em 1999 e 2001! Joguem imaginando como eram os demais jogos naquela época! (Não adianta você querer assistir, por exemplo, Ben-Hur (o clássico de 1959), comparando-o com os filmes atuais.

A UCEG e o Quebrando o Controle farão um review sobre o remastered nos próximos dias! Aguarde!

Dados técnicos:

Shenmue

  • Gênero: Action-Adventure
  • Desenvolvedor: Sega AM2
  • Publisher: Sega
  • Plataforma: Dreamcast
  • Lançamento: 29 de Dezembro de 1999 (Japão), 8 de Novembro de 2000 (EUA), 1º de Dezembro de 2000 (Europa)

Shenmue 2

  • Desenvolvedor: Sega AM2
  • Publisher: Sega (Dreamcast), Microsoft Game Studios (Xbox)
  • Plataformas: Dreamcast e Xbox
  • Lançamento: Dreamcast: 9 de setembro de 2001 (Japão), 23 de novembro de 2001 (Europa); Xbox: 28 de outubro de 2002 (EUA), 21 de Março de 2003 (Europa).

Shenmue 1 & 2 Remastered:

  • Desenvolvedor: Sega AM2, d3t
  • Publisher: Sega
  • Plataformas: PlayStation 4, Xbox One e PC
  • Lançamento: 21 de agosto de 2018

 

Autor: Mário Coelho Bessa