111111111[1]Como você deve ter lido na nossa coluna Momento Retro ( http://ucegamers.com.br/siteuceg/shenmue-uma-revolucao-silenciosa-no-mundo-dos-jogos-eletronicos/ ), Shenmue é um dos jogos mais importantes da história.  As inovações de Yu Suzuki reverberam até hoje. Mas como essa obra fundamental se porta na geração atual em uma versão remasterizada? Vamos descobrir?

Sempre vejo com muita ressalva versões remasterizadas de jogos. Versões caça-níquel, que soam como obras meramente requentadas com mero reajuste gráfico para as plataformas atuais não são, por si, argumentos me levam a comprar facilmente um game que já joguei em outro momento. Para mim, não fez sentido algum jogar, por exemplo, The Last of Us no PS3 para, logo em seguida, jogar no PS4 o mesmo jogo, ligeiramente mais bonito…

Por outro lado, através das versões remasterizadas, um novo público pode conhecer obras verdadeiramente importantes de jogos antigos, aos quais não tiveram acesso à época do lançamento sejam pela idade, por não ter tido determinado console no passado, por não curtir games na época, e por aí vai…

E é exatamente por este segundo argumento que defendo as versões remasterizadas de jogos. Principalmente os mais antigos, retrabalhados de forma competente (não necessariamente em termos de aprimoramento gráfico). Entretanto, sempre que coloco as mãos em uma versão remasterizada, tendo jogá-la me posicionando no tempo e no espaço em que a obra original foi lançada (falei bastante sobre isso no artigo do Shenmue no Momento Retro – link acima). E, assim, chegamos nas versões remasterizadas de Shenmue I e II, que envelheceram tão bem, que chega a ser impressionante e irritante como um jogo com mais quase 20 anos de idade ainda é tão atual. Essa impressão só se evidencia por um único fato: o jogo original era tão revolucionário, tão a frente de seu tempo, que hoje, como vários games ainda se inspiram nele, ele não consegue ficar defasado. A falta de disponibilidade da obra máxima de Yu Suzuki em plataformas modernas, reforçaram, ao longo dos anos, o status de Shenmue como um jogo cult. Principalmente aqui no Brasil, onde pouca gente jogou o primeiro jogo no Dreamcast e, menos gente ainda, jogou o segundo, também na última plataforma da Sega, com lançamento posterior para o primeiro Xbox.

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comparação entra a primeira versão e a versão do xbox clássico.

Ainda dando um desconto da defasagem gráfica, posto que os jogos originais saíram para o Dreamcast em 1999 e 2001, respectivamente, Shenmue ainda chama a atenção. Não pela modelagem dos personagens, efeitos de luz e definição de imagem. Mas pelo mundo aberto que foi sua maior característica e ainda é ENORME para jogos dos padrões atuais (reitero, quase 20 anos depois!).

De fato, não há, propositadamente, foco algum no jogo, que é de mundo verdadeiramente aberto. Em vez disso, o apelo do game sempre foi para ser a chance de experimentar o mundo do jogo no seu próprio ritmo, explorando e interagindo com os personagens, com o ambiente, e desenvolvimento do enredo, mas também vivendo uma vida virtual parecida com nossas vidas ordinárias reais nesse meio tempo.

O primeiro jogo se passa no Japão em 1986 e nos colocamos na pele de Ryo Hazuki, que no começo do jogo testemunha seu pai sendo morto por um misterioso lorde do crime chamado Lan Di. Isso imediatamente o coloca no caminho da vingança, mas o enredo abrangente da série só vem realmente à tona na última hora da continuação (Shenmue II). Para a maioria do primeiro jogo, você está simplesmente vivendo sua vida normal no Japão: conversando com pessoas e seguindo pistas quando puder, mas também indo para o trabalho e perdendo tempo nos fliperamas locais (cheios de jogos da Sega, um verdadeiro deleite).

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Virtua Fighter 2 em Shenmue

Shenmue é um jogo sem rumo definido, verdadeiramente prolixo e frequentemente muito sem graça. Ao mesmo tempo, sua maior graça está exatamente em passar horas descobrindo alguns dos momentos mais sublimes criados no mundo dos games por meio de uma vida virtual, em que diversos eventos do jogo só acontecem em horários específicos do dia, e você só precisa esperar até que eles aconteçam.

O nível de detalhe ainda é surpreendente e a obsessão do jogo com trivialidades é ainda é fascinante nos dias de hoje. Imaginem em 1999. Por isso, reitero: jogue uma versão remasterizada imaginando o tempo em que a obra original foi lançada! Contextualizando assim, é muito mais divertido, surpreendente e honesto com o criador e sua criatura. Dito isto, outra recomendação, esta não para os remasterizados, mas para Shenmue em si: tenha tempo para jogá-lo. Não adianta querer curtir este jogo em sentadas de 20-30 minutos na frente da TV. Shenmue requer dedicação e, assim, tempo. Se tiver calma e paciência, você será brindado com um jogo sublime. Simples assim. Voltando à remasterização. Em termos da qualidade, a obra é competente. Os gráficos foram um pouco melhorados (em especial uma melhora em resolução e adaptação para formato widescreen).

 

Assim, se você não teve um Dreamcast no início dos anos 2000, não jogou Shenmue I e/ou o II, está é sua hora. Principalmente pelo fato de que, em quase 20 anos, por mais que dezenas (talvez centenas) de jogos tenham bebido na fonte de Shenmue, nunca houve nenhum outro jogo como ele. NENHUM. Por isso a obra prima de Yu Suzuki permanece tão única e fascinante nos dias de hoje.

Agora nos resta esperar o desfecho da saga, com o inédito Shenmue III, já anunciado para o ano que vem!

Post Script

Prós: O tamanho e a complexidade dos ambientes de jogo ainda são impressionantes hoje, assim como a atenção aos detalhes.

Contras: A progressão lenta. Controles imprecisos em diversos momentos.

Pontuação: 9/10

Dados técnicos:

  • Shenmue 1 & 2 Remastered
  • Desenvolvedor: Sega AM2 e d3t
  • Publisher: Sega
  • Plataformas: PlayStation 4, Xbox One e PC
  • Lançamento: 21 de agosto de 2018
  • Versão testada: PlayStation 4