Com a chegada do novo ano, quem disse que não podemos visitar paixões do ano anterior? Como um bom cidadão brasileiro que não tem muito dinheiro para comprar jogos em seus lançamentos, mas com a ajuda de uma amiga que nos presenteia constantemente na reta final do ano, Black Friday, consegui finalmente pôr as mãos em um dos melhores (na minha humilde opinião), junto da série Arkham, jogos do gênero de super-heróis.

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Em sua primeira aparição na E3 de 2016 durante a famosa (e posso até dizer lendária) conferência da Sony, onde os maiores heavy hitters dos jogos foram anunciados, como God of War (Jogo do ano), Resident Evil 7 (o renascer da franquia), o remake da trilogia clássica de Crash Bandicoot, Days Gone (Years gone talvez? hehe) dentre muitos outros. Spider Man foi um dos que passaram batidos por mim, pois não sou um conhecedor ávido dos quadrinhos, mas tinham um certo apego ao personagem por conta do seriado animado vinculado em meados dos anos 90 aqui no Brasil. Foi com o passar do tempo que este jogo foi ganhando espaço na minha mente até o trailer mostrado durante a conferência da Sony na Paris Games Week de 2017, desde então fiquei ansioso para o seu lançamento.

E então, ele conseguiu satisfazer as minhas expectativas ou ficou no espaço da mediocridade? Como vocês já perceberam por conta da abertura dessa review, ele foi além do que eu esperava e sim, sem vergonha de assumir, diferente de alguns amigos que também aqui escrevem (não é Mário?!), eu chorei copiosamente ao completar este maravilhoso jogo.

 

Enredo

Toda a narrativa do jogo é quase cantada, pois para aqueles que têm o conhecimento mínimo do universo do cabeça de teia consegue identificar várias figuras que estampam as páginas dos quadrinhos e as cenas dos filmes e séries animadas. Por isso não irei analisá-la como um “veterano” nas histórias do amigo da vizinhança.

Começando com os personagens, um dos pontos mais forte do jogo, nada de reviravoltas ou explicações mirabolantes, mas sim a interação, a vida que rodeia esses personagens, a cada momento e em cada conversação onde é perceptível o carinho e o esmero que os roteiristas aplicaram neste jogo.

É claro que os gráficos de ponta gerados pela Insomniac Games tenham gerado uma maior empatia pelos mesmos, mas a personalidade, tornando-os distinguíveis e singulares. Em vários momentos, esquecia que estava jogando e simplesmente acreditava que aquilo era um filme. Um exemplo dessa naturalidade entre as interações são as várias conversas vividas entre Peter e MJ, quando tratam do término do namoro, das peculiaridades de cada um, como era a vida entre os dois durante o relacionamento e muitas outros pontos que aprofundam o elenco e trazem o jogador para perto gerando afeto.

Todo o processo de desenvolvimento da trama é consistente, mas dá a impressão de que foi acelerada após a metade do jogo, talvez por motivos de desenvolvimento do muito material pode ter sido filtrado, retirado por motivos de prazos ou até mesmo propositalmente.

Colocando um pouco o monóculo de um leitor dos quadrinhos, muitos personagens já conhecidos são apresentados e em sua maioria já sabemos como serão os seus papéis e seus futuros dentro da trama, mas uma metáfora pode resumir muito bem o que ocorre para aqueles que são cadeiras cativas do Aranha, você sabe aquela comida caseira, aquele arroz com feijão e bife que sua mãe sabe fazer, pois é, o roteiro é a mesma coisa, são estruturas familiares e que já estamos bem habituados, porém muito bem feito e estruturado, com diálogos significativos e que aproximam o jogador aos personagens, as transições dos atos nos deixam ansiosos para continuar e descobrir as consequências de muitos dos acontecimentos e o final da aventura me deixou ansioso para uma continuação, além é claro de ter me deixado às lágrimas.

O jogo nos mantém sempre cientes dos resultados e repercussões de nossos atos heroicos através de um podcast hosteado por J.J. Jameson onde ele de forma rotineira tenta apresentar o Homem Aranha como uma ameaça, além de dar todo um panorama do que está acontecendo na cidade, não vou negar que durante os vários momentos onde estava combatendo o crime ou até mesmo me locomovendo de um ponto para o outro, o cast se tornou um ótimo companheiro para aprender mais sobre o universo do jogo, além de vários momentos engraçadíssimos entre Jameson e os ouvintes.

Para aqueles que querem saber uma leve sinopse do que os aguarda no jogo, aqui vai:

Peter já age como Spider-man há 8 anos, já se graduou e atualmente trabalha junto de um famoso cientista (que não vou nomear por motivos de spoiler) e continua a sua jornada em busca da conciliação entre as suas duas vidas. Um dia é acordado com um chamado da polícia pedindo reforços para uma intervenção na torre Fisk, este acontecimento é muito esperado por Parker, pois já vinha trabalhando junto a Secretaria de Segurança da cidade em busca de provas para a condenação de Wilson Fisk (também conhecido como Rei do Crime).

Após a prisão de Fisk, Peter acha que tudo irá aos poucos se resolver na cidade, porém algo maior conspira nas sombras e a cidade irá passar por momentos tensos e tenebrosos e muita carga negativa (“ba dum tss”).

Zomizaranha na torre dos avengadores

Easter Eggs foram espalhados por todo o jogo, a qualquer momento o jogador se depara com alguns, desde quadrinhos aos filmes foram citados e contextualizados com uma das mecânicas do jogo, em forma de colecionáveis, pontos turísticos e diálogos.

 

Gameplay

Este, meus caros, é o fator mais forte de todo jogo, no momento que você é surpreendido pela abertura e jogado na ação é perceptível de imediato o quão polido este jogo é, e como atravessar a cidade de Nova York com as suas teias será uma experiência incrível e único.

Começando com a física do balanço em diferentes direções quando usando as teias, a forma como você sente a velocidade de sua movimentação e a adrenalina de conseguir se locomover de um canto da cidade para o outro sem errar, num fluxo constante e crescente de reflexos.

Algo que foi muito bem utilizado é o recurso de durante a queda livre ou em qualquer momento durante a travessia do jogador apertar o botão x para disparar uma teia em linha reta que pode aumentar a velocidade de movimentação horizontal, como também corrigir o curso, estes e outros recursos foram implementados para favorecer uma boa locomoção pelo mapa.

A forma de correr, fazer parkour, soltar teias para locomoção e etc. é possível ao segurar o botão R2, algo similar ao já usado na franquia Assassin’s Creed, não vou negar que em determinados momentos era mais complicado andar e subir em locais específicos do que fazer acrobacias e lutar com inúmeros inimigos por conta da velocidade incutida no jogo, algumas ações básicas se tornavam trabalhosas de se executar.

Continuando com o tema batalhas, a fluidez de ataques, esquivas, uso de acessórios, finalizadores e outros comandos são bem interligados e seguem um ritmo acelerado que no começo pode ser um pouco difícil para o jogador, principalmente pela facilidade que Peter tem de morrer, o herói é mais ágil e forte, mas ainda assim não é um Superman. É quase impossível falar desse jogo sem traçar paralelos com a série Arkham, tendo em vista que o gênero do jogo é similar, porém aqui esta fórmula foi aprimorada pela Insomniac e um dos principais exemplos que podemos citar é a junção da movimentação de combate e a de mobilidade, onde a qualquer momento podemos utilizar dela para abordagem de batalhas no topo de prédios ou em múltiplos, algo que era bem difícil de se executar na franquia criada pela Rocksteady.

Outro fator que ajudar o jogador a dar mais dinamismo ao combate é a habilidade de dar investidas com sua teia ao pressionar o botão triângulo, essa ação gera a oportunidade de executar um combo contínuo sem perder tempo ao trocar de alvos. O uso de elementos no ambiente para arremessar em seus inimigos também adiciona mais ferramentas no leque de combate do jogador.

Além de todos os acessórios que podem ser desbloqueados de acordo com o andar da história, como também ao coletar várias “moedas” de upgrades, que podem ser obtidas de várias formas, em completar missões secundárias, desafios, coletar objetos e etc., estes são de grande ajuda para continuar e conectar combos ou até mesmo para salvar a sua vida em determinados momentos.

Alguns puzzles são encontrados com no decorrer da campanha, mas nada muito relevante e difícil, chega a ser um “passatempo” entre as várias atividades que temos durante as quase 20 horas de jogo.

Na área dos colecionáveis e side quests, o jogo os trabalha de uma forma diferente, mas bem efetiva, eles são desbloqueados esporadicamente com o avanço da história, algo que me deixou muito confortável porque normalmente tendo a fazer todas as side quests e esqueço das missões principais. Outro fator que dá mais segurança e um bom ritmo ao jogo é que durante a história alguns intervalos existem para que o jogador tenha um tempo exclusivo para completar as tarefas alternativas e pode ficar tranquilo que ele faz questão de que você saiba que esse tempo é para você andar pela cidade fazendo as demais atividades que o jogo oferece.

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Aqui temos um exemplo da diversidade de atividades secundárias do jogo. Muitas, porém sem abusar.

 

Gráficos

Não é necessário falar muito sobre este setor, pois como já sabemos os jogos exclusivos da Sony sempre primam neste quesito, sendo eles buscando o realismo ou algo mais estilizado.

Após sermos jogados dentro do jogo, percebemos aos poucos os pequenos detalhes, texturas dos mais variados tecidos, metais, pedras, tudo está de forma impecável. Um bom exemplo desse trabalho de dedicação e esmero é visível nos mais variados uniformes do Aranha que podem ser desbloqueados. Continuando a temática de uniformes, muitos leitores irão identificar todos os mantos disponíveis neste jogo, apesar de ter coletados todos ainda assim não consegui utilizar outro que não fosse a nova versão feita para o jogo (aquele uniforme é foda, lembra muito alguns designs feitos por Todd McFarlane).

 

Trilha Sonora e Efeitos Sonoros

Combinando com o roteiro, a trilha sonora não deixou a desejar, várias das trilhas me lembravam de muitas já ouvidas nos filmes da trilogia original de filmes de Sam Raimi, e meus amigos, posso dizer com segurança, um dos temas mais incríveis feitos para o herói. Outra característica bem peculiar e que torna um dos principais momentos mais memoráveis é a forma que a trilha sonora se comporta quando você se lança de um prédio e começa a navegar usando as suas teias. Devo abrir um adendo para a sequência de abertura, que trouxe a música Alive (Warbly Jets) que se encaixa e gera uma ótima introdução a ambientação e clima do jogo.

Parar e aplaudir de pé ao trabalho espetacular da equipe de mixagem de som, normalmente jogo com fones de ouvido (por não ter dinheiro para um home theater decente) e este hábito comumente gera uma atenção maior para a forma com que o som se comporta nos vários ambientes do jogo, em movimento e até o balanço dos níveis de áudio. Todos estes aspectos estão impecáveis.

Algo que decidi alocar a essa secção é o fato de todos os diálogos, presentes durante o gameplay, foram gravados duas vezes, um para quando Peter está parado e outro para quando está em movimento, mais um detalhe que demonstra o cuidado da equipe.

 

Veredito

Marvel’s Spider Man (PS4) é um jogo excepcional, consegue ser uma das melhores, senão a melhor adaptação já feita sobre o amigo da vizinhança. O respeito pelo material original, a dedicação e paixão inseridas neste projeto são visíveis em cada ato.

Em alguns momentos alguns travamentos e crashes ocorreram durante o decorrer da campanha, nada que prejudicou a integridade do meu save, mas ainda assim é incômodo. Além das engasgadas durante a retomada de gameplay ao sair do modo Sleep. Mesmo assim, estes momentos não tiram o mérito da equipe e deste trabalho fabuloso, sem falar no final que me deixou em lágrimas.

Este jogo vale cada centavo, se for em promoção melhor ainda não é?! Todos os elogios já falados por outros canais da mídia fazem jus ao que a Insomniac Games fez aqui.

Obs.: Platina fácil para os caçadores…

 

Pontos Negativos e Positivos

Positivos: Ótima campanha, excelente gameplay e divertido.

Negativo: Pressa na reta final da narrativa, ações simples se tornam complicadas e alguns problemas de desempenho.

 

Nota

4/5

 

Dados Técnicos

  • Nome do jogo: Marvel’s Spider Man;
  • Data de lançamento: 7 de setembro de 2018;
  • Desenvolvedora: Insomniac Games;
  • Publisher: Sony Interactive Entertainment;
  • Plataforma: Playstation 4
  • Plataforma utilizada na análise: Playstation 4

 


 

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Rômulo Barbosa

Designer Gráfico e Videografista.

“O mínimo que eu peço é uma jogabilidade decente”.