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Se passaram tantos anos, que já não é mais novidade…

Introdução

Escolher Days Gone para um review não foi tarefa simples. Os sucessivos e incontáveis adiamentos do jogo me deixaram ressabiado. Muito. Foram tantos atrasos, que o jogo passou a ser chamado de Years Gone (Anos se passaram) por diversas pessoas. Eu, inclusive. Mas como trabalho desse tipo não se escolhe, vamos ao review.

Produzido pela própria Sony (ou seja, exclusivo do PlayStation 4), Days Gone vem numa sequência de títulos grandiosos e memoráveis da fabricante do PS4. Horizon Zero Dawn, God of War e Spider-Man foram outros exclusivos da plataforma, produzidos pela própria gigante japonesa, e imediatamente antecessores de Days Gone. E logo depois dele, teremos outra leva de exclusivos, a saber: Death Stranding (o primeiro projeto de Hideo Kojima após sua saída da Konami), The Last of Us 2 e Ghost of Tsushima. Esses três últimos já pintam como promessas de títulos grandiosos, com potencial de serem eleitos Jogo do Ano.

Neste contexto, vamos tentar descobrir se Days Gone, no futuro, vir a ser considerado o patinho feio dessa leva de grandes títulos. E se isso acontecer, será injusto com o jogo de apocalipse zumbi de mundo aberto? Para descobrir, deixe de preguiça e leia abaixo!

O jogo

De início, um fato: Days Gone não é inovador. Simples assim. E esse é seu maior problema.

Sua história é relativamente simples, sem grandes detalhamentos.

Com um personagem principal sem um grande carisma, Deacon St. John, ou Deek para os mais chegados, é um membro de uma gangue de motoqueiros do Oregon, estado norte-americano, que, por conta de um apocalipse zumbi (no jogo, chamados de Freakers), se vê forçado a colocar sua namorada, Sarah, ferida, em um helicóptero e buscar a sobrevivência ao lado de um amigo, Boozer (mais sem graça do que picolé de chuchu), ao mesmo tempo em que busca o que realmente aconteceu com sua namorada.

Parênteses: o nome do jogo, decorre da contagem de dias desde o evento em que se deflagrou o apocalipse zumbi. Há uma contagem de dias, sendo que a parte jogável do game (após às cenas iniciais de apresentação) começa a acontecer mais de 700 dias após do apocalipse.

A história é rasinha assim… Um protagonista sem grande carisma, com ele montado em uma motocicleta (bem dizer um personagem, dada sua importância no jogo), acompanhado de um NPC (Boozer) igualmente insosso, rodando em uma região montanhosa (essa sim o grande destaque do jogo), perseguido por hordas zumbis de tamanhos nunca vistas antes em um jogo, gangues de humanos e pequenas comunidades de refugiados. Tudo, sem que o jogador saiba praticamente nada do que aconteceu fora da região onde se passa o jogo, o que abre possibilidades para jogos futuros da série.

A motoca do Deek é um verdadeiro personagem do jogo

A motoca do Deek é um verdadeiro personagem do jogo

[SPOILER ALERT ON: estejam avisados e não reclamem depois] A história incomoda bastante, posto que o enredo não é aprofundado como deveria, residindo neste pormenor uma lacuna que deixa o jogo desinteressante, haja vista que uma história como essas deveria (a meu ver), apresentar elementos do que de fato aconteceu no mundo e qual seria a cura para a praga zumbi (parece que a equipe de produção não assistiu/leu, por exemplo, Eu Sou a Lenda. Ou então viram Guerra Mundial Z sem som, só para ver as imagens das levas de zumbis na tela, o que parece ter sido uma real inspiração para alguns momentos do jogo).

Cito estes filmes, relativamente recentes, pelo fato de serem obras com roteiros bem executados, principalmente com relação ao senso de propósito dos protagonistas das obras na busca por saber o que aconteceu e/ou da cura para o mau zumbi, o que não acontece sem com Deacon, nem com Boozer, nem com ninguém no jogo, que se resume à sobrevivência pura e simples, e na busca de Deek por Sarah. A Esta situação se agrava em um jogo especialmente longo, como Days Gone. [SPOILER ALERT OFF, eu te disse, eu te disse…]

Em meio a este cenário, pequenas missões relativamente repetitivas e, em essência, pouco inovadoras. Mas que são bem executadas e divertidas, especialmente as que envolvem dizimar incontáveis zumbis estupidamente burros, que são, essencialmente, uma manada de monstros assassinos, inseridos em tiroteios extravagantes que fariam o John Wick de Keanu Reeves buscar ser estagiário de Deek. Nas missões onde aparecem essas hordas o nível de estresse do jogador acaba sendo bastante alto, e descobrir os caminhos no cenário para eliminar todos os Freaks é o ponto chave das missões. Um grande acerto do jogo.

Momento Run, Forrest, Run!

Momento Run, Forrest, Run!

A jogabilidade é competente, misturando elementos de diversos jogos anteriores. Você verá bastante de Far Cry aqui (especialmente os momentos de sobrevivência, caça de animais e uso de itens do cenário), um pouco de The Last of Us acolá (escassez de munição e curativos), uma pitada de furtividade (não tem como não se meter em uma lixeira de uma zona urbana e relembrar de cara Solid Snake – de Metal Gear – e sua lendária caixa de papelão) e grandes picos de ação, esses sim memoráveis. Entretanto, como tudo no jogo, se repetem…

Não é o Zé Colmeia

Não é o Zé Colmeia

As missões seguem, basicamente, a mesma fórmula: 1. Pegue sua moto; 2. Dirija até o ponto indicado no mapa; 3. Localize pistas para continuar a missão; 4. Mate os zumbis e/ou rivais que encontrar pelo caminho; e 5. Siga para a missão seguinte.

Eu já vi um gameplay parecido. Sim, eu vi!

Eu já vi um gameplay parecido. Sim, eu vi!

Isso é ruim? E eu respondo: depende! Bem, se a repetição é injustificada, mal executada, enfadonha, etc., obviamente é ruim. Se a repetição se dá com variações minimamente adequadas, mantendo um bom ritmo na narrativa da história e apresenta uma experiência relevante ao jogador, eu acho válida. E Days Gone fica pendendo nessa balança na maior parte do tempo, apensar de que, no final das contas, cai para o lado da primeira resposta.

Os momentos que são realmente interessantes são aqueles em que zilhões de zumbis (esse eco não saiu de propósito) enchem a tela e deixam o jogador em momentos de estresse profundo, mas não são suficientes para transformar a aventura de Deacon memorável.

Os combate corpo a corpo são legais, apesar (adivinhem) de não serem inovadores...

Os combate corpo a corpo são legais, apesar (adivinhem) de não serem inovadores…

Os combate corpo a corpo são legais, apesar (adivinhem) de não serem inovadores…

Fora esses momentos, creio que Days Gone acaba ficando marcado não pelo que realmente entrega… Mas o que poderia ter entregado, caso lançado dentro do prazo inicialmente divulgado… Assista ao vídeo de deixou todo mundo espantado na E3 de 2016 e gerou o hype deste jogo:

Tenso, muito tenso!

Agora, o que eu não gostei foram alguns dos controles. O acesso aos itens é até interessante, a forma de evolução do personagem, idem. Mas o painel touch do Dualshock 4 é aplicado de forma confusa e o controle da moto não é preciso o suficiente.

Continuando, os gráficos são competentes (apesar do que os personagens em si sofrem com modelagem ruim) e acertam em cheio nas interações com os ambientes construído e natural. Este último é o grande destaque do jogo.

Como disse, a modelagem dos personagens não ficou das melhores...

Como disse, a modelagem dos personagens não ficou das melhores…

Se você tiver um PS4 Pro, pelo amor de Deus plugue numa TV 4K e não deixe de ativar o HDR (lembrando que o PS4 Slim também tem HDR)! Com estes recursos ativados você vivenciará momentos espetaculares de transição entre dia e noite e momentos de com chuva e neve bem acima da média, com destaque ainda maior pela localização do jogo em um ambiente montanhoso, com muita vegetação e lama, permeado por pequenas áreas construídas.

Dia e noite. Ative o HDR para ficar ainda melhor!

Dia e noite. Ative o HDR para ficar ainda melhor! [ESQUERDA – HDR ON / DIREITA – HDR OFF]

O ambiente construído é bem executado

O ambiente construído é bem executado

Outro ponto de destaque do jogo na versão brasileira: a dublagem! O trabalho de localização foi primoroso e a dublagem é uma das melhores dos últimos tempos, com boa variedade de falas, sincronização de voz pra lá de adequada com os personagens e uma mixagem incrível, deixando a experiência de jogo imersiva como deve ser. A propósito, jogue com o som mais alto, ou com um headset, para escutar direitinho o que os personagens falam, especialmente quando se comunicam por rádio.

Veredito

Lá no começo do review, perguntei se Days Gone poderia ser considerado o jogo mais fraco de uma sequência absolutamente incrível de jogos da própria Sony para o PS4. Bem, o que tenho a dizer: da leva produzida pela própria Sony em si, isso é uma verdade incontestável, afinal os demais jogos antecessores são hits absolutos. E os que estão pra chegar (possivelmente) se enquadrarão na categoria de obras inesquecíveis, estandarte que não merece ser dado ao jogo deste review.

Com relação a outros concorrentes do gênero, Days Gone sobressai como um jogo meramente competente, pouco acima da média e que merece ser conferido por apreciadores do gênero de ação em mundo aberto, em especial os que gostam da série Far Cry, da Ubisoft, mas dispensável para o grande público, apesar do incrível hype que pairava sobre o título quando da sua divulgação. Uma pena, pois esperava bem mais.

Post Script

Como o roteiro do jogo é bastante aberto, sem maiores detalhamentos, fica a esperança de que os erros deste jogo possam ser corrigidos em uma eventual sequência. No mundo dos games, um primeiro produto regular, mediano, não implica, necessariamente, em uma franquia ruim. E ai fica o alento de que um eventual Days Gone 2 amarre as pontas que o primeiro deixou, para entregar uma continuação melhor.

O jogo conta com uma edição de colecionador bacana, mas que não foi lançada oficialmente no Brasil.

O jogo conta com uma edição de colecionador bacana, mas que não foi lançada oficialmente no Brasil.

Prós: Gráficos (destaque para o clima e ambiente natural), som (em especial a dublagem) e diversão.

Contras: Repetitivo, relativamente longo e com jogabilidade a ser aprimorada, caso venhamos a ver um Days Gone 2.

Pontuação: 6,5/10.

Dados técnicos:
Days Gone
Gênero: ação de mundo aberto
Desenvolvedor: Sony Bend
Publisher: Sony Interactive Entertainmet
Plataformas: PlayStation 4 (exclusivo)
Lançamento: 26 de abril de 2019
Plataforma de teste: PlayStation 4 Pro


Foto Mario

Mário Coelho Bessa

“Entusiasta de jogos eletrônicos desde os 5 anos de idade, quando ganhou seu primeiro videogame, um Atari 2600. Adora a geração de 16 Bits e, por causa dela, virou colecionador”