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E a difícil missão de superar o seu antecessor

por Mário Coelho Bessa

Introdução

A Electronic Arts está ligada aos FPS, principalmente aos que têm como tema a 2ª Guerra Mundial, desde o final dos anos 1990, quando revolucionou o gênero com o glorioso Medal of Honor. Esta série, idealizada por ninguém mais ninguém menos que Steven Spielberg, teve jogos memoráveis, mas foi sugada à exaustão, ao ponto de cansar os jogadores.

A concorrência de Call of Duty e Brothers in Arms (alô, Ubisoft, não se esqueça de seus filhos) foi forte, e a poderosa EA colocou Medal of Honor na geladeira, focando na então nova série Battlefield, com abordagem a combates modernos, mais dinâmicos, e com grande foco no modo multiplayer online, sendo bastante bem sucedida com a nova série. Abre parêntese: Medal Honor até ensaiou um reboot, com novos jogos ambientados na Guerra do Afeganistão, mas não foi muito adiante, voltando para a hibernação em 2012 e permanecendo em estado de latência até os dias de hoje. Fecha parêntese.

Mas nem só de acertos vive uma franquia de jogos, e com Battlefield não foi diferente. Hardline, que saiu dos cenários guerras modernas e colocou os jogadores no combate ao crime organizado, foi bastante criticado e a EA resolveu dar uma nova guinada na série, lançando, em 2016, o fabuloso Battlefield 1 (BF1) com seus gráficos foto-realistas, cenários amplos, divertidos, e o mais bacana: foco em eventos históricos da 1ª Guerra Mundial, evento histórico pouquíssimo abordado em jogos eletrônicos.

Com BF1, a franquia voltou a ser verdadeiramente grande, com uma campanha pra lá de decente, modos de jogo online verdadeiramente grandiosos, em tamanho de mapas, número de jogadores, modos de jogo e histórias emocionantes, muitíssimo bem executados. Tanto assim que foi bastante elogiado na época de seu lançamento, sendo sucesso de crítica e vendas.

Não é de se admirar que a fórmula bem-sucedida de BF1 fosse replicada em um novo jogo, Battlefield V (BF5), que marca a volta da série à 2ª Guerra Mundial. Mas o novo jogo foi bem desenvolvido? Vale a pena? Vamos tentar descobrir.

Primeiramente, destaco que BF5 bebe da mesma fonte de seu irmão mais velho: BF1. Isso é bom e ruim ao mesmo tempo. Bom pelo fato de BF1 ser espetacular, e qualquer produto desenvolvido em cima dele já parte de premissas técnicas de altíssima qualidade. Engine, gráficos, física, modos de jogo são impecáveis. Ruim pelo fato de, ao invés de tentar melhorar o que já era bom, se resume a reproduzir o jogo anterior, de forma mais reduzida, inclusive no que se refere à quantidade de fases, chegando ao ponto de parecer ser uma DLC do jogo anterior, só que ambientada na 2ª Grande Guerra. E por incrível que pareça, não consegui achar o jogo ruim. Muito pelo contrário.

 

Modo Single Player

 

BF1 foi lançado originalmente com 6 fases (posteriormente saíram outras novas, via DLC). BF5, em seu lançamento, conta com somente 3 fases no modo campanha, com uma 4ª a ser liberada em 04/12/2018 (outros modos de jogo serão lançados ainda em dezembro).

Feita a principal crítica ao jogo, de se parecer demais com o anterior, vamos ao gameplay em si.

O modo campanha, como dito, tem 3 fases disponíveis (mais um prólogo onde é rapidamente apresentada a jogabilidade), retratando fatos pouco conhecidos da 2ª Guerra Mundial (cuidado, pois boa parte do jogo é obra de ficção, apesar de ter um fundo histórico) e fugindo do lugar comum do Dia D e Stalingrado, recorrentes em jogos desse período histórico. Cada fase se passa em um local diferente do planeta, colocando o jogador para controlar três personagens muito diferentes entre si, tudo de forma muitíssimo parecida com BF1 (desculpem a redundância, mas é exatamente isso, posto que BF1 tinha fases criadas e distribuídas exatamente desta forma).

As fases não são interligadas entre si (adivinhem, igual a BF1) e são estruturadas em 3 atos. Na ordem em que são apresentados em tela, temos a fase chamada Por Conta Própria, ambientada no norte da África, onde controlamos um jovem criminoso inglês, especialista em assaltos a banco, recrutado para combater em uma unidade que daria origem às atuais Forças Especiais do exército britânico.

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O ambiente do deserto africano é bem retratado, bastante amplo, as missões bem definidas, e com possibilidade do jogador utilizar uma abordagem stealth o mais focada no combate direto. A interação do personagem com o NPC é bem legal, tem um clima cinematográfico e até uma piadinha clichê, mas bacaninha, bem na parte final. Alguns bugs incomodaram bastante. Por exemplo: se você morre logo após concluir um objetivo, mas sem que o seguinte ainda seja apresentado, o jogo, ao reiniciar, já te coloca em condição favorável (como se você não estivesse sob fogo na situação em que foi anteriormente morto) de forma a iniciar o momento seguinte do ato. Alguns outros bugs de cenário e personagens também acontecem, mas nada suficientemente ruim ao ponto de estragar sua experiência de jogo. Apesar de tudo, nos pareceu a fase mais fraca do jogo.

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A segunda fase disponibilizada se chama Nordlys, onde o jogador controla uma jovem combatente da Resistência Norueguesa que, com sai mãe, tentam sabotar o desenvolvimento da bomba atômica alemã. Esta é a melhor fase do modo campanha, com diferenças interessantes com relação às demais, e apresenta missões tensas, com um final espetacular! O ponto alto do modo campanha, sem sombra de dúvidas, em especial por tornar o clima gelado da Noruega como um elemento essencial para a progressão durante as fases.

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A terceira fase jogável se chama Tirailleur e nos coloca na pele de soldado de batalhão senegalês, que combateu sob comando do Exército Francês, na retomada do território da França do domínio alemão. A fase é bastante interessante, com cenário variado e apresentando um aspecto pouco retratado em jogos, atinente à discriminação dos soldados senegaleses pelos franceses. Destaca-se que Senegal foi colônia francesa até 1960, tendo os senegaleses combatido em uma guerra que não era, de fato, deles.

A quarta fase, que não foi disponibilizada no lançamento, se chamará O Último Tiger, o que nos leva a crer (pelo apresentado no Prólogo do jogo), que controlaremos um tanque alemão, uma abordadem também incomum para jogos da 2ª Guerra, onde raramente controlamos personagens alemães, principalmente pela vinculação ao nazismo.

Certamente Nordlys e Tirailleus serão queridinhas do modo online. Aguardemos O Último Tiger para ver como se comporta (faremos uma atualização deste review assim que a jogarmos)

Uma observação sobre o modo campanha reside no fato de o mesmo dar um enfoque bastante furtivo na jogabilidade. O que é mais condizente com a proposta do jogo, pois um único personagem agindo como Rambo ou Braddock, que, sozinhos, destroem todo o exército inimigo sem sofrer um arranhão, não casam muito bem em jogos que pretendem apresentar uma certa fidelidade histórica ao jogador. Achei interessante a abordagem stealth, mas senti um pouco de falta das grandes batalhas caóticas, mas elas ficam reservadas para o modo online, de forma absolutamente justificada.

Outro ponto bastante positivo do jogo reside em sua trilha sonora. Grandiosa, como sempre, a série Battlefield acerta novamente com BF5 e se você é assinante do Deezer, pode curtir todas as músicas neste link: https://www.deezer.com/br/album/76822202.

Os trabalhos de dublagem (com narração do excelente ator britânico Mark Strong) e efeitos sonoros também são competentes, mantendo o padrão alto da série.

Fechando as observações sobre o modo campanha, fica a impressão que o jogo foi feito às pressas. Lançar um AAA com apenas 3 fases dá a nítida impressão de se tratar de um produto incompleto. Apesar de as fases lançadas serem bem executadas, dá pra finalizar em cerca 4 horas, o que é pouco. Com mais a fase a ser lançada, em 5, 6 horas no máximo se chega ao fim… Honestamente, queria mais, bem mais…

 

Multiplay

 

Battlefield é uma franquia amplamente conhecida por seu celebrado modo multiplayer. Se você já jogou o multiplayer em BF1, já sabe exatamente o que vai encontrar em BF5, que bebe na fonte da série que tem, mais uma vez, o modo Conquest como a cereja do bolo, com inúmeros objetivos diferentes espalhados por enormes mapas para as equipes capturarem. Usar aviões, tanques, controlar artilharia, com interação com forte o clima (ah, a neve…) e cenário (dá pra construir uma proteção de sacos de areia, por exemplo) e literalmente destruir edificações dos cenários é simplesmente sensacional. Ponto pra DICE!

Outros modos de jogo online também estão presentes, tais como o Frontlines que é um enorme jogo reverso de cabo-de-guerra, onde as equipes lançam tudo o que têm em objetivos únicos enquanto se movem em direção à base do inimigo.

Grand Operations, também decorrente de 1 é outro destaque, com vários mapas e inúmeros objetivos para sua equipe atingir, de forma a impedir que os inimigos façam progressos significativos. Esse modo, em especial, é geralmente bastante longo para um multiplayer de FPS.

Além disso, outros modos de jogo online, que serão lançados gratuitamente em 2019, serão lançados, tais como o modo Battle Royale. Todos os mapas futuros serão gratuitos e o jogo só usará microtransações para itens cosméticos, possivelmente em decorrência às imensas críticas feitas a Star Wars Battlefront II, também da EA, que teve de recuar, o que foi bastante positivo para os jogadores.

 

Veredito

 

Battlefield V é um excelente FPS da 2ª Guerra Mundial e tem mais potencial a ser explorado com as já divulgadas atualizações. O sólido (mas curtíssimo) modo campanha e o impecável multiplayer estão entre o melhor que a indústria de jogos tem a oferecer neste estilo de jogo.

O grande problema BF5 é, exatamente, o seu antecessor. Quem jogou BF1 terá a mesma impressão de que tive, de que é mais do mesmo (o que, repito, não é ruim. Só não é impactante.). Se você não jogou o jogo da série baseado na 1ª Grande Guerra será surpreendido de maneira muito mais contundente do que aqueles que jogaram o game anterior.

Independentemente disso, não resta dúvidas que BF5 é um jogo bem executado e deve ser jogado, principalmente por aqueles que gostam de FPS.

 

Post Script

 

Só uma coisa tenho a dizer: ainda bem que a EA não lançou outro jogo com Season Pass e microtransações exageradas. Isso possibilitará ao jogador, que recebeu um produto incompleto (a prova é a fase 4 do modo campanha, que será lançada em 04/12), terá seus conteúdos relevantes (incluindo novos modos de jogo e mapas online) disponibilizados de forma gratuita. Vivendo e aprendendo!

 

Prós: Gráficos maravilhosos, histórias interessantíssimas da 2ª Guerra Mundial no modo campanha, missões balanceadas e mapas amplos e com ótimos designs.

 

Contras: modo campanha poderia ser mais longo (vamos esperar a primeira atualização, programada para o dia 04/12/2018), bugs e IA dos inimigos.

 

Pontuação: 8/10

 

Dados técnicos:

Battlefield V

Desenvolvedor: DICE

Publisher: Electronic Arts

Plataformas: PlayStation 4, Xbox One e PC

Lançamento: 20 de novembro de 2018

Versão testada: PS4 (rodando em PS4 Pro)

 


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Mário Coelho Bessa

“Entusiasta de jogos eletrônicos desde os 5 anos de idade, quando ganhou seu primeiro videogame, um Atari 2600. Adora a geração de 16 Bits e, por causa dela, virou colecionador”