Z-Fugaz

A temática desse mês foi um grande desafio, principalmente por dois motivos: primeiro pela qualidade do texto escrito pelo Samuel Levi e segundo por esse tema representar uma nova visão e ponto de abordagem a respeito dos jogos. Contudo, esse é o intuito da coluna: gerar os questionamentos com a finalidade de demonstrar outras perspectivas referentes ao universo dos games.

Tentarei, nas linhas abaixo, criar um contraponto ao que foi dito pelo Samuel, não por discordância, mas sim por acreditar na capacidade de construção do destino por parte do sujeito e que as grandes estruturas, por mais coesas que sejam, são formuladas por pessoas. O texto anterior mostrou a grande máquina e neste vou colocar em evidência as engrenagens.

Continuo pensando em confluência com o meu texto anterior, a respeito da representação feminina dos jogos, onde afirmei a existência de um padrão referente àqueles que escrevem a História – homens, brancos e cristãos. Para que esses sujeitos se mantenham no poder, eles precisam de instituições que tenham a capacidade de coagir os sujeitos a compreenderem o seu lugar social, estrutura como as escolas, as forças armadas e os presídios são as preferidas para esse intuito.

Os jogos, por serem fruto da produção cultural humana, refletem uma metáfora social, ou seja, através dos games e os seus discursos podemos compreender aspectos do grupo social de quem os produziu. Dessa forma, podemos perceber na estrutura dos jogos os mesmos grilhões sociais da vida real, pois, dependendo da atitude que você toma no jogo, você está designado ao enredo desenvolvido pelos programadores dos jogos, algo que reflete muito a sociedade real, como podemos perceber no trecho do maior poeta do século XX, Mano Brown:

“Tiazinha trabalha há trinta anos e anda a pé.” Assim como nos games, onde o final é previamente decidido, a vida de alguns sujeitos já estão traçadas – sim, meritocracia no Brasil é uma falácia! (fico emocionado quando uma pessoa pobre “vence na vida”, mas ficarei ainda mais emocionado quando os jovens tiverem as mesmas condições para “vencer na vida”).

BRASFOOTCOLUNA

Eu tinha três opções para jogar Brasfoot: 1º: passar o mês sem comer na escola e juntar 13 contos, 2º: jogar a versão demo onde você começa na quarta divisão e não pode pegar jogadores por empréstimo e não pode jogar a UEFA EURO ou a copa SULAMERICANA ou 3º: testar milhares desses códigos postados na internet e contar com a sorte em pegar um que ainda seja válido.

Parte da argumentação da coluna anterior deriva do pensamento do intelectual francês Michel Foucault, onde o mesmo afirma existir o poder, que é algo inerente aos seres humanos, gerando assim as relações de poder. A grande questão é que alguns indivíduos, por estarem em situação mais abastada, se apropriam disso com mais intensidade do que outros, coagindo esses a agirem de forma coesa com o tipo de sociedade considerada ideal.

Partindo do pressuposto que os jogos são estruturas fechadas, faço o seguinte questionamento: Existem então diferentes maneiras de fazer uso dessa estrutura? Se existem, quais são? Pensando sobre isso, cheguei em duas situações onde pude observar a distorção das regras e um uso que destoa – mesmo que minimamente – daquilo para que o jogo foi previamente constituído.

A primeira coisa que me veio à memória foi do tempo em que eu jogava “Brasfoot” – bons tempos, onde comprava jogadores do Brasil ou da Argentina que tinham uma estrela e, depois de uma temporada inteira na Europa, o jogador estava valendo muitos milhões a mais, ou quando treinava clubes brasileiros, marcava amistoso com clubes europeus para lotar o estádio e gerar renda extra e, principalmente, quando contava com a solidariedade social de outras pessoas que postavam os códigos de ativação na internet, pois no meu tempo de ensino médio juntar a incrível quantia de 13 reais para ativar o jogo era uma tarefa árdua.

A segunda situação foi a mais inusitada e surgiu depois de observar minha companheira Ju Sousa jogando GTA V por uns 30 minutos, onde ela ignorava totalmente as missões do jogo e ficava o tempo todo “passeando e cometendo transgressões sociais na praia” – leia: assassinatos e espancamentos. Quando questionei se não faria as missões, recebi uma resposta sucinta e esclarecedora: “Não, pois eu não sou nem obrigada. É por isso que não gosto de outros jogos, pois eles me deixam presa na história.” Esse diálogo foi travado depois de ter lido a coluna anterior e praticamente materializou o que foi escrito pelo Samuel.

GTA-V1

Missões para que, se eu posso ficar batendo nas pessoas na praia? Não sou nem obrigada! SOUSA, Ju.

Como vocês puderam ver, não apresentei situações onde o jogador deliberadamente mudava a estrutura do jogo, mas sim algumas maneiras de como interagir com essa estrutura a fim de criar “microespaços” de poder, onde podem interagir e “resistir” ao processo de dominação. Michel de Certeau pega a perspectiva de formação de arquétipos corporais por meio da ordem espacial promovida pelas instituições e tenta compreender em sua análise exatamente as frestas dessa rede de poder, ou seja, como as pessoas comuns absorvem essas ordens que vem de cima para baixo, como o mesmo afirma no trecho abaixo:

“Em primeiro lugar, se é verdade que existe uma ordem espacial que organiza um conjunto de possibilidades (por exemplo, por um local por onde é permitido circular) e proibições (por exemplo, por um muro que impede prosseguir), o caminhante atualiza algumas delas. Deste modo, ele tanto as faz ser como aparecer. Mas também as desloca e inventa outras, pois as idas e vindas, as variações ou as improvisações da caminhada privilegiam, mudam ou deixam de lado elementos espaciais. (…)”

– Certeau: 165

Vamos tentar perceber essas articulações partindo de um exemplo histórico concreto. Tentem imaginar o Brasil colonial, especificamente a instituição escravista. A colonização brasileira é um dos poucos exemplos da História onde a força de trabalho era majoritariamente escrava – se compararmos com os Romanos antigos, podemos ver que, apesar da existência da escravidão, a maior força de trabalho era o campesinato livre. Aqui, os negros foram retirados de suas regiões natais e trazidos para cá – deslocamento geográfico – e vendidos para regiões onde não tivessem outros de seu círculo social – deslocamento cultural -, essa estrutura de tráfico visava diminuir a resistência ao escravismo. Aqui no Brasil ficou comum a construção de senzalas em baixo das casas grandes, mostrando arquitetonicamente a estrutura de dominação. Mas, mesmo em condições adversas, os negros conseguiram criar estratégias para tentar melhorar a péssima condição em que foram designados, tais artifícios podem ser ilustrados com negros que viraram capitão do mato, mulheres negras que cometiam infanticídio – para seus filhos não nascerem escravos -, negros que tinham seus filhos apadrinhados pelo senhor de engenho, na formação de famílias e nas fugas e criações de quilombos.

Percebam que, no parágrafo acima, os negros não mudaram toda a estrutura onde foram colocados de maneira impositiva, mas se articularam com a estrutura existente afim de criar bolhas de poder. Então, quando um “sem dinheiro adolescente” busca a licença do jogo de graça na internet ou quando alguém se recusa a fazer as missões impostas pelo jogo, isso pode representar essas diversas estratégias que não estão presente só nos jogos, mas em nosso cotidiano.

Karl Marx – filósofo muito criticado, porém pouco lido, entendam essa crítica como quiserem – deu uma grande contribuição para a História no momento em que idealizou o materialismo histórico, conceito usado pelo mesmo para afirmar a participação dos sujeitos na constituição da sociedade perfeita que foi nomeado por ele de comunismo. É sempre bom lembrar que Marx pensou isso para a Europa no século XIX e hoje estamos no Brasil do século XXI, são locais geograficamente e historicamente distintos, mas a premissa de pensar um sujeito que tem consciência de sua participação na História ainda é algo válido. Mesmo concordando com o texto do Samuel – ficou mesmo muito bom – eu, enquanto professor de uma escola pública da periferia de Fortaleza, tenho que crer que meus alunos podem ser importantes na construção de uma sociedade mais justa.


10406431_702036486561645_8899101243727556583_nSávyo Enrico
Professor de História
“Vim pra sabotar teu raciocínio”