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Na primeira coluna do mês, discuti as possibilidades de uso dos jogos eletrônicos em sala. Como normalmente acontece aqui na coluna, todos os meses tratamos de uma temática que é abordada de maneira distinta, tanto pelos pontos específicos trabalhados e pela singularidade de escrita dos colunistas. Por uma série de questões de força maior serei eu a fechar esse mês de debate  buscarei tratar de maneira mais prática dois jogos que julgo interessante para o uso educacional. Como mencionei anteriormente, a intenção de trabalhar com jogos materializou-se a partir do uso do jogo Valiant Hearts em uma revisão sobre Primeira Guerra Mundial.

Em minha curta experiência quanto docente, percebi que as grandes guerras são temáticas que podem originar aulas desastrosas, pois as datas, grandes generais, os vários detalhes das guerras podem tornar maçante a explanação do conteúdo, contudo quando busquei explorar o “sentimento” da guerra as aulas se desenrolaram com mais fluidez.

Nesse caso o qual seria o sentimento da guerra? Segundo o Historiador Eric Hobsbawm o maior nome da Historiografia ocidental no século XX, enquanto o séc. XIX foi longo e séc. XX passou de maneira breve. Os dois séculos tiveram é claro 100 anos, mas o tempo pode ser sentido de maneira distinta de acordo com a maneira com o que você o vivi, segundo Hobsbawm os acontecimentos da primeira metade do Sec XX – entre eles a 1º guerra mundial – aceleraram a percepção de passagem do tempo e provocaram mudanças estruturais de como as pessoas viam o mundo.

A Primeira Guerra Mundial que começou em 1914 e terminou em 1918 teve em média 9 milhões de combatentes mortos, observando isso no número parece algo frio, mas se pensarmos as destruições das cidades, as famílias destroçadas, a capacidade de destruição das armas e principalmente a desestruturação mental das pessoas que passaram por esse acontecimento. Assim o que entendemos por guerra mudou após o impacto da primeira guerra mundial. Dois jogos são formidáveis propor essa percepção junto aos alunos que são o próprio “Valiant Hearts” e um jogo que tive contato nos últimos dias que se chama de “This War of Mine”.

Em uma apresentada na Semana de Integração Pedagógica da UECE, realizei uma atividade próxima com o que pretendo realizar nas escolas e pode nos trazer elementos iniciais referentes ao processo de pesquisa. A atividade discorreu da seguinte maneira: Primeiro expus os participantes da oficina ao jogo Valiant Hearts, que trata da primeira guerra mundial, fazendo com que eles jogassem o jogo e pudessem desvendar as mecânicas do software. Em seguida fiz uma leitura coletiva de dois textos, um era o trecho do livro “Sobre História” do historiador Eric Hobsbawm, onde ele falava sobre a realidade europeia no pós-guerra e o outro era um relato de um padre britânico sobre seu trabalho em uma enfermaria durante o conflito. Por fim pedi que comparassem as três fontes.

Entre os variados textos produzidos pelos participantes da oficina, dois se destacaram por sua distinção analítica, no texto 1 temos a seguinte afirmativa:

“Existem visões diversas sobre momentos históricos. Durante o acontecimento (primeira guerra mundial) as visões e relatos mais verídicos são de pessoas que estiveram presentes (como o relato do padre que ajudou os feridos na guerra).” (ANDREZA LIMA ARAÚJO)

Apesar de admitir a formação múltipla do conhecimento histórico – “existem visões diversas sobre momentos históricos” – o texto acima cria uma hierarquização a respeito da veracidade de quem conta a História, atrelando a aqueles que foram testemunhas oculares dos acontecimentos os mais capazes de fazer uma leitura dos acontecimentos históricos.

Já no segundo texto Andressa Bastos afirma:

“Diante das 3 versões podemos observar a diferença de tempo entre eles (…) O padre detalha seu ponto de vista, ajuda feridos, participa desse período histórico caracterizado por tragédias. (…) Enquanto o historiador expõe seu pensamento sobre a época, sem ter vivido, apenas por seus estudos da História.(…) O jogo traz a História do papel para a tela, trazendo em imagens algumas “curiosidades” e mostra um pouco do que foi vivido pelas famílias naquele tempo.” (ANDRESSA BASTOS)

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No segundo relato ainda temos a hierarquização da autoridade sobre a História, colocando a testemunha ocular como a melhor forma de retratar o passado, pois foi quem o viveu. Contudo o segundo relato demonstra uma nível mais complexo em sua análise, na medida em que afirma não só a diferença entre as versões, mas a distinção de tempo de onde elas foram produzidas, além de está atento a mudança tecnológica de cada versão, o fato do jogo levar a “História do papel para a tela”.

Partindo da produção dos alunos podemos perceber dois pontos principais, o primeiro se trata da possibilidade de mapear a consciência histórica dos alunos, entendendo suas especificidades de aprendizado em História. O segundo ponto busca compreender quais diálogos históricos os alunos vão produzir ao serem expostos aos jogos. Para tais pontos uma mecânica em especial que ajuda a incitar os alunos a pensarem a mudança que a guerra causou historicamente e como isso os afeta hoje no presente são os diários que os personagens jogáveis redigem durante o jogo, onde fica explicitado suas angustias em relação a tudo que estava acontecendo durante a guerra. O uso dos diários nos ajuda a pensar a guerra através das pessoas comuns que a viveram mostrando como  uma moça francesa advinda de uma  família de agricultores no sul da França teve o pai francês e o marido alemão convocados para a guerra o que acabou por a deixar sozinha com o filho recém-nascido além ter seu pai e marido como rivais no “front” de batalha.

No caso do “This war of mine” um jogo produzido pela 11bit uma empresa independente serei mais breve, pois elencarei abaixo questões que julgo serem importante a serem trabalhadas em sala já que não tive oportunidade de trabalhar o jogo em minhas aulas.  O game trás a tona uma visão diferente sobre os jogos de guerra. Normalmente os FPS não proporcionam aos jogadores o sentimento de empatia, pois você elimina aqueles que o jogo define. No caso do jogo aqui em questão, você não é um combatente fortemente armado e treinado pra guerra, mas você controla um grupo de refugiados no meio de uma guerra civil, onde tem que procurar comida, medicamentos e outras coisas para fazer com que o grupo sobreviva. O brilhantismo desse game está na capacidade do mesmo de fazer o jogador a perceber o outro.

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Em uma das vezes que joguei um dos personagens estava doente e precisava de comida e medicação, quando anoiteceu e tive que ir coletar mantimentos entrei em uma casa de idoso e fiz o personagem roubar os velhos, mesmo sabendo que os mesmos morreriam sem aquela comida e sem a medicação. Consegui o que queria salvar o companheiro, mas dias depois o personagem que roubou o casal de idosos se suicidou por conta da questão moral que o fiz passar. Dessa forma podemos perceber outro ponto positivo presente nos jogos que é a interdisciplinaridade, pois além de debater a temática Histórica da 1º Guerra um jogo com tais ferramentas nos permite debater questões filosóficas e sociológicas.


10406431_702036486561645_8899101243727556583_nSávyo Enrico
Professor de História
“Vim pra sabotar teu raciocínio”