Z-fuga

E ai pessoal. Eis aqui mais um texto afim de problematizar os universo dos videogames. Antes de começar, queria me desculpar pelo atraso na publicação da coluna, passei por alguns problemas pessoais recentemente e isso acabou por impedir a publicação do meu texto na data correta.

Seguindo a mesma linha de raciocínio inciada pelo Samuel Levi na última coluna, o texto que segue buscará também versar a respeito da representação feminina nos jogos.

Antes de aprofundar no tema, gostaria de fazer a seguinte indagação: “Quem escreve a História?” Será que já paramos pra pensar nisso? Tentar responder indagações como essa nos faz abstrair e compreender que o mundo que nos rodeia não é necessariamente natural, mas que foi fruto de um processo histórico ladrilhado por questões socioculturais. Segundo Walter Bejamin, “(…) os que num dado momento dominam são os herdeiros de todos os que venceram antes. A empatia com o vencedor beneficia sempre, portanto, esses dominadores.(…)”.

Partindo da afirmativa supracitada, podemos perceber que parte considerável da nossa História, enquanto brasileiros, foi escrita por uma série de sujeitos que possuíam as seguintes características em comum: Eram homens, brancos e católicos. Tudo que foge a esse molde ficou em segundo plano no processo de escrita da História. Podemos exemplificar esse processo através dos livros didáticos de História, que até pouco tempo atrás não tratava da cultura nativa ou negra sem atrelá-la ao português.

Mesmo com a Revolução Francesa (1789-1799) – acontecimento que mudou estruturalmente a cultura ocidental – que partia do princípio de Igualdade, fraternidade e liberdade, não teve tais ideais aplicados a todos os sujeitos, como denunciou Marquês de Sade, que expôs de maneira realista a hipocrisia dos Revolucionários que ambicionavam mudanças e em contrapartida continuavam a manter as mulheres presas ao lar e escravas do sexo.

A personagem Laura explicita bem a maneira estereotipada de como a mulher miscigenada brasileira ainda é representada

Vale lembrar que o ideário revolucionário foi regado principalmente por ideias advindas dos pensadores iluministas, que pregavam entre outras coisas a tese dos direitos básicos do seres humanos. Contudo, essa tese entrava em cheque quando se tratava, por exemplo, das mulheres que eram vista por Voltaire como “eternas doentes” por conta do ciclo menstrual – imagine só como não eram vistas as nativas brasileiras ou as negras.

Como explicitado no paragrafo acima, vivemos historicamente em uma sociedade dominada por homens. E se em vez de nos perguntarmos Quem escreve a História?” Eu tecer a seguinte questão, Quem produz os jogos?” Não é tão difícil afirmar que esse campo é constituído, na maioria das vezes, por Homens. E mesmo apesar do crescimento de mulheres que se interessam por games – para jogar ou produzir -, essa área é majoritariamente dominada por homens.

Partindo desta premissa, Margie Simpson em um episódio da 18º temporada dos Simpsons, afirma que as personagens dos jogos são produzidas por homens para outros homens, e isso pode ser facilmente verificado nos trajes encontrados para as mulheres nos jogos, que por muitas vezes vão para a guerra vestidas com um top e uma calcinha, o que deve ser de fato super confortável e protege partes vitais do corpo. Como toda generalização é burra gostaria de fazer menção ao Diablo III, onde as personagens femininas a meu ver foram bem construídas.

Ano passado na prova do ENEM uma passagem da intelectual Simone de Bevauvoir, que afirma que as mulheres não nascem mulher mas se tornam, gerou uma série de comentários, muitos dos que eu li – de alunos, colegas e familiares – se colocavam contrários a essa afirmativa, contudo creio que o rechaçamento dessa ideia se deu principalmente pelo não entendimento do que foi dito.

Para tentar explicar melhor a passagem, usarei uma metáfora do antropólogo Levi Strauss, que explica a cultura através de um jogador de cartas, ou seja, quando entramos em um jogo de baralho recebemos cartas aleatórias – que são nossas características culturais – e temos que usar essas cartas para construir nosso jogo, além do seu próprio jogo o sujeito tem que lidar com outras pessoas com cartas diferentes da sua. Dessa forma quando Bevauvouir afirma que as mulheres se tornam ao nascer, ela está tentando explicitar todos os ritos culturais que a sociedade espera de uma mulher.

Por conta da força do tempo ou da imposição, algumas características nos parecem ser “naturais”, contudo a História mostra que o que consideramos natural, na verdade foi naturalizado, ou seja, construído ao longo do tempo. Os jogos como são produzidos por homens – espécie – representam características daqueles que os produzem e criam arquétipos de como as pessoas devem ser – principalmente jogos muito popularizados -. Não precisamos necessariamente deixar de jogar alguns jogos que objetificam a figura feminina, mas temos que aprender a reconhecer esses esteriótipos afim de não reproduzi-los.

Essa Campeão do LOL está vestida para batalha ou para desfilar em uma Escola de Samba

É fato que nos últimos anos a procura de mulheres por jogos eletrônicos aumentou de maneira substancial e essa é uma área que pode crescer bem mais, quando os jogos compreenderem que nossas garotas atualmente são empoderadas e querem perceber pessoas como elas nos jogos.

Deixo ainda mais um link com o fragmento do um filme O Substituto: https://youtu.be/VvOKCf-Xzio


10406431_702036486561645_8899101243727556583_nSávyo Enrico
Professor de História
“Vim pra sabotar teu raciocínio”