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Fundamentações teóricas e aprofundamentos conceituais do jogo de cartas “Lutas Simbólicas”

Em meados de 2011, nascia uma ideia que iria mudar por completo minhas vivências enquanto professor de sociologia no ensino médio, ou mesmo na educação superior. Eu não saberia precisar com clareza como tudo ocorreu, mas talvez o germe desta nova invenção esteja em alguma raiz afetiva que me vincula a um tipo especial de fascínio por aquilo que denomino “universo lúdico”. Nesse sentido, e inspirado na máxima de Walter Benjamin quando este afirma que “brincar significa sempre libertação”, fui tocado pelos elementos dinâmicos, eloquentes, singelos e vitais das brincadeiras e dos jogos. Isto ficou estampado em minha trajetória acadêmica através das escolhas de meus objetos de estudo: durante o curso de graduação em licenciatura em ciências sociais, interessei-me pelo “ser brincante” de crianças em situação de rua em Fortaleza; já durante o mestrado em sociologia, fui fascinado pelo universo dos jogadores profissionais de futebol digital (os cyberatletas). Em ambos os casos, o que estava em jogo era o caráter deslumbrante e complexo das expressões lúdicas dos agentes nestes distintos universos.

Através deste fluxo de pensamento, segui na captura de indícios de que a teoria sociológica possui alguns fundamentos elementares e objetivos, que são expressos através de conceitos e matrizes filosóficas. E foi com tal perspectiva em mente que aos poucos percebi que tais conceitos assumiam (e neste momento já peço licença para uma tentativa de expansão da imaginação e do pensamento) algumas características de “regras gerais”. E, de acordo com Johan Huizinga, são exatamente as “regras” que tornam os jogos jogáveis, experimentáveis e sociáveis. E foi neste sentido que comecei a vislumbrar a ideia de que certos manuais de teorias sociológicas poderiam ser lidos enquanto manuais de regras de diferentes jogos. E grande foi meu espanto quando finalmente me dei conta de que diversos pensadores deste campo de saber também assumiam esta perspectiva de entendimento (muitas vezes de forma subjacente, ou mesmo de modo expresso): refiro-me à ideia latente de que a sociologia é antes de tudo um jogo, um esporte, um combate.

De acordo com minhas pesquisas, um dos autores que talvez tenha levado mais à sério esta ideia de que a sociologia pode ser entendida (a partir de suas perspectivas fundamentais) enquanto um jogo ou um esporte, foi exatamente aquele considerado por alguns especialistas um dos maiores nomes da sociologia na segunda metade do século XX: Pierre Bourdieu. E se Bourdieu compreendia a sociologia enquanto um “esporte de combate”, isso se refletia através de sua compreensão de que o mundo social (e o campo acadêmico jamais estaria isento deste entendimento) é um campo perpétuo de “lutas simbólicas” (a grande maioria delas sem razões de ser, já que para tal autor o próprio gênero humano se constitui enquanto um “ser sem razão de ser”).

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O jogo de cartas Lutas Simbólicas é uma proposta educativa e lúdica para o ensino de sociologia nas escolas.

Apesar destas aparentes ondas de futilidades (não seriam todos os jogos sem importância?), as lutas simbólicas englobariam zonas perpétuas de combates, sendo que os objetos em disputas variam a partir de uma infinidade de desejos, paixões e pulsões. Assim, se em termos filosóficos Bourdieu poderia (de forma acertada, a meu ver) expor que todas as lutas simbólicas não teriam uma razão de ser, isso não nos autorizaria a afirmar que na prática cotidiana tais embates seriam irrelevantes ou banais. Na verdade, é exatamente o contrário que ocorre: é principalmente em razão de suas banalidades (característica esta recalcada pelo inconsciente) que as lutas simbólicas se tornam relevantes para aqueles agentes inseridos em diferentes contendas.

E é neste momento que entraria a illusio, um dos mais importantes e ambíguos conceitos proposto por Bourdieu. Em um primeiro momento, a illusio funcionaria enquanto criação de uma relação encantada responsável pela formação da adesão visceral dos agentes aos embates. É por conta dela que os agentes estão dispostos a jogarem os jogos sociais, ou mesmo a arriscarem suas próprias vidas por eles. Por outro lado, a illusio também seria o sentimento responsável por fazer as pessoas esquecerem que a vida social é um jogo. Assim, quanto mais o jogador ou a jogadora se vincula ao jogo, mais distante tal pessoa fica do entendimento de que o mundo social é um jogo, ou de que os objetos, as premiações e as conquistas em disputa não passam de invenções, criações, desejos fabricados por manuais de regras que se fazem esquecer enquanto manuais de regras. Guardemos essa perspectiva: a illusio funciona enquanto um operador geral de vinculação dos agentes aos jogos sociais, na mesma medida em que provoca uma anamnese individual e coletiva; ou seja, um desconhecimento de que aquilo que nós lutamos com tanto esmero e vontade não passam de criações, invenções ou mesmo pastiche.

Contudo, se as lutas simbólicas e os embates cotidianos estão por todo lado, podemos neste momento nos indagarmos: O que está em disputa nessas contendas? Quais suas regras e seus prêmios? O que de fato está em jogo nos jogos simbólicos? A partir destas reflexões, eu e um grupo de amigos nos propomos a lançar um material pedagógico que nos ajudassem a refletir sobre essas questões. Nascia assim uma ideia ou uma invenção que pretendia pensar sobre a sociedade e o mundo em que vivemos a partir do entendimento de que o mundo social é um grande jogo. E é neste contexto que surge o jogo de cartas “Lutas Simbólicas”.

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FIGURA 1: Cartas de capitais simbólicos

Inspirado na teoria dos capitais simbólicos proposta por Pierre Bourdieu, tal jogo se passa em uma sociedade na qual pessoas lutam por posições de prestígio e distinção social. Para isso, tais agentes necessitam acumular diferentes capitais simbólicos, que são divididos em três tipos: o capital econômico, o capital cultural e o capital social (FIGURA 1). Ganha o jogo quem conseguir acumular mais cartas de capitais simbólicos, e com isso se diferenciar e se distinguir socialmente. Assim como na teoria, no jogo Lutas Simbólicas os capitais funcionam enquanto marcadores de distinção social e é a partir deles que as pessoas poderão exibir seus índices de riqueza e com isso reivindicar seus privilégios.

Mais ainda podemos nos indagar: como os capitais simbólicos se expressam no mundo social? Como é possível acessá-los e conquistá-los? Já explanamos anteriormente que o mundo social é uma perpétua luta simbólica e que tais modos de jogar e suas respectivas conquistas variam de acordo com o campo social na qual estaríamos inseridos. De todo modo, quando pensamos a respeito da sociedade em que vivemos, podemos imaginar a extrema vocação que cada um dos elementos nesses distintos campos possui para se tornar “capitais”.

Não será possível neste momento nos prolongarmos neste complexo debate. Contudo, esclarecemos que o contexto do jogo de cartas Lutas Simbólicas é aquele representado por um mundo extremamente violento e desigual, na qual pessoas lutam para transformarem seus capitais simbólicos acumulados em forças motrizes capazes de lhe garantirem zonas exclusivas de privilégios e de poder. Assim, a busca frenética de tais pessoas por estes signos de distinções (representados pelos “capitais simbólicos”) incorpora o entendimento proposto por diversas pessoas que se propuseram a refletir criticamente a respeito do mundo em que vivemos.

Nesse contexto, pensemos em Zygmunt Bauman e em sua teoria sobre a modernidade líquida, representada por ele enquanto um mundo ao avesso, na qual as pessoas são estimuladas a desistirem da colaboração e da busca por futuros públicos em razão do individualismo e da busca egoísta por seu lugar ao sol. Do mesmo modo, pensamos na explanação proposta do Karl Marx e em sua crítica à mercadoria e ao mundo do capital. Pensemos também em Walter Benjamin e em sua crítica romântica ao progresso a ao mundo tecnocrático. Na mesma medida, lembremos de Vandana Shiva, principalmente quando ela se predispõe a compreender de que forma a “monocultura do saber” atua enquanto um fator impulsionador do saber ocidental, mesmo que tal ação possa ocasionar a destruição de saberes tradicionais milenares.

Cartas de ações simbólicas

FIGURA 2: Cartas de ações simbólicas

Como pudemos observar, o jogo Lutas Simbólicas possui em seu contexto um plano de atuação extremamente distópico e violento, na qual jogadores e jogadoras deverão adentrar se assim pretendem “ganhar o jogo”. E tal mundo sufocante é observado em diversos elementos gráficos e ilustrativos que sugerem o alto grau de distopia da sociedade em que vivemos. Quando observamos as cartas de capitais simbólicos (FIGURA 1), podemos notar um emaranhado de arames farpados. Tal elemento sugere o índice de raridade e exclusividade de tais signos distintivos. De mesmo modo, quando observamos alguns exemplos de cartas de ações simbólicas presentes no jogo de cartas Lutas Simbólicas, espécies de oportunidades ou formas de agir dos agentes no mundo social, podemos observar mais alguns elementos gráficos que ajudam as pessoas que vivenciam uma partida a refletirem e pensarem criticamente sobre o mundo. Como podemos notar (FIGURA 2), as cartas de ações simbólicas estão sob um plano de fundo representado por um muro negro e mais uma vez notamos arames farpados que delineiam as ilustrações que representam as ações simbólicas. Com isso, pretendemos demonstrar a exclusividade e a raridade das oportunidades presentes no mundo.

Por fim, finalizamos este breve texto reflexivo que pretendeu brevemente aprofundar algumas fundamentações teóricas e conceituais subjacentes ao contexto teórico que engloba o universo do jogo de cartas Lutas Simbólicas. Tal jogo se apresenta enquanto uma proposta lúdica ao ensino da sociologia na educação básica e no ensino superior. Nesse sentido, compreendemos o “universo lúdico” enquanto um campo fértil de atuação a ser explorado e a sociologia (entendida enquanto um “esporte de combate”) poderá se beneficiar deste recurso ao compreender que são os jogos a matéria-prima das lutas simbólicas cotidianas. Assim, na luta contra a anamnese coletiva, poderemos através deste e de outros jogos novamente nos darmos conta de que são os jogos a natureza social das ações simbólicas cotidianas.

FONTE(s): Jogo de cartas Lutas Simbólicas.


Daniel Costa Valentim é idealizador do projeto Lutas Simbólicas, doutorando em Sociologia pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e colaborador na comunidade de compartilhamento de arquivos “Sementes Digitais”.

“Quem fala em igualdade de oportunidades esquece que os jogos sociais não constituem jogos justos”. (Pierre Bourdieu)