Templários x Assassinos

Tudo bom gente? Bom como sou nova por aqui, deixa eu me apresentar um pouco antes da gente iniciar esse texto de hoje.

Me chamo Bruna Alves, sou formada em História e gamer desde a época do Sonic no Mega Drive e estou iniciando esse ano a coluna pra comentar um pouco de games, história, personagens e muito mais. Aproveito também pra agradecer ao meu amigo Sávyo pelo convite e a oportunidade de poder escrever num mundo ainda tão rodeado por homens, mas que as mulheres aos poucos estão encontrando seu espaço. E pra primeira coluna do ano, vamos abordar um tema mais ou menos polêmico, diria até meio clichê (ou não né), porém, acho de fundamental importância discutirmos sobre o que chamamos de “Sociedade Binária”, ou seja, uma sociedade que apenas pensa por duas vias, dualista.

E o que exatamente quer dizer isso? Bom, dependendo do ponto de vista esse termo pode ter diferentes significados . Por exemplo: dualismo de gênero (homem x mulher), dualismo de religiões (muçulmanos x cristãos) e por aí vai, no entanto, o binarismo que quero abordar aqui com vocês é dualismo de ideologias (algo que não deixa de estar presente nos outros tipos), e para isso vou utilizar de exemplo uma das franquias de jogos bem-sucedidas do mercado atualmente: Assassin’s Creed. A história desse jogo se iniciou lá nos meio dos anos 2000, mais especificamente no ano de 2007, e desde então tem sido um sucesso de vendas e de público. Inclusive o filme está prestes a ser lançado nos cinemas no mundo todo ainda em Janeiro deste ano. (Quando você estiver lendo isso talvez ele já tenha sido lançado). Mas se você não tem tanto conhecimento da franquia e nem no enredo, aviso que terá spoiler a partir de agora.

O jogo se passa em diferentes momentos da história do mundo, e conta uma história basicamente ocidental. Passando por diversos grandes temas como Roma, Cruzadas, Idade Média, Revolução Francesa, Revolução Industrial, Independência das 13 colônias, Pirataria e etc. O interessante dos jogos é que você realmente é levada pra dentro daquele mundo em todos os sentidos, pois a produtora francesa Ubisoft caprichou nos detalhes desses games. Me chamaram a atenção, por se tratar de jogos que abordam a história para além das Guerras Mundiais (1º ou 2ª), o que era o mais comum de vermos na época (no cenário de games). Outro motivo foi porque também fiquei muito interessada no enredo, o qual traz no roteiro, personagens reais do período histórico em que viveram, como Charles Dickens ou Charles Darwin em Assassin’s Syndicate; Leonardo da Vinci ou a família Borgia em Asssassin’s 2 , sem contar os detalhes dos cenários e das vestimentas dos personagens que são muito bem elaborados e construídos.

Qual o principal enredo em que todos os jogos da franquia estão inseridos? Claro que é a eterna luta entre “assassinos x templários”, o “bem x mal”, os “mocinhos x bandidos”, mas será que é só isso mesmo? Pensando um pouco, e analisando para além da jogabilidade de Assassin’s, observamos o quanto essa briga de ideologias tem presença marcante no game. De um lado as pessoas que querem combater o mal dos templários e de outro aqueles que só querem explorar os mais humildes aumentando seu poder e riqueza pessoal. O que há de curioso nisso tudo é o fato de que os assassinos são isso mesmo o que nos atribuímos ao nome: ASSASSINOS. Numa sociedade como a nossa, marcada pela “moral e bons costumes”, ter um herói de ficção que mata muita gente o tempo todo já é algo inédito, no entanto, não vou me ater as questões morais que esses jogos trazem (apesar de render uma discussão ótima).

Os protagonistas de Syndicat, Jacob e Eve Frey (Imagem: Divulgação)

Os protagonistas de Syndicate, Jacob e Eve Frye (Imagem: Divulgação)

Ao trazer o jogo um pouco para a realidade brasileira e a exemplo do último jogo da franquia (Syndicate), percebemos como a sociedade é pintada em preto no branco. Como mostra o game, não é tão simples assim. Vivemos um momento bem complicado na política de nosso país, onde ou todo mundo é “petralha” ou é “fascista”. Termos banalizados. E assim os opostos se odeiam, não há meio termo tanto no jogo, quanto na vida real. E isso quer dizer que as pessoas devem escolher um lado, ficar em cima do muro não pode. Isso é uma relação não muito complicada de se perceber nos dois cenários. No jogo, nós podemos lutar pelos direitos dos operários, libertar crianças do trabalho braçal, sabotar fábricas e até ajudar o Karl Marx a não ser preso para organizar as suas reuniões, e matando muita gente no meio do caminho. Na vida real, nem tudo pode ser resolvido com assassinatos, se assim fosse seríamos uma sociedade tribal.

Agora imagine-se naquela sociedade abordada no jogo por dois minutos, se você possuísse uma fábrica, símbolo do capitalismo à época, em Londres (uma das maiores cidades capitalistas no inicio da Revolução Industrial), e utiliza da mão-de-obra disponível na época como crianças, idosos, mulheres e homens. Pagando valores ínfimos para todos (o que era o comum) com o qual só dava pra, literalmente, sobreviver e você lucrando pra caramba, qual seria seu pensamento racional em relação a destruição das máquinas, por exemplo? Fica óbvio que nesse cenário, você dono de fábrica não iria querer que um bando de “arruaceiros” entrasse na sua fábrica e destruísse tudo, né? Ótimo. Então fiquem com isso na mente. Agora vamos nos transportar para o presente, as fábricas hoje são mais espaças e bem mais distantes das grandes cidades, quem assumiu o papel delas como símbolo do capitalismo foram duas instituições, os bancos e as grandes corporações. Hoje, se causam algum dano a prédios dessas instituições a mídia joga logo na manchete “Vândalos picham e quebram”, percebem a relação com o passado e presente? O que o jogo Assassin’s nos mostra é justamente a oposição de ideias. No caso de Syndicate, é a oposição de operários e pessoas mais humildes, pobres contra os patrões e donos de fábricas. A relação entre o que permanece ao longo do tempo até os dias atuais é algo diferente do passado, claro, porém as relações de poder continuam as mesmas.

Os donos de empresas e conglomerados tem todo o poder na maioria das cidades capitalistas, enquanto os “arruaceiros e vândalos” também (geralmente) continuam na sua mesma classe social. O que muda para nós, na realidade, é a nossa percepção de quem é o herói da história. No jogo Syndicate, os heróis são pessoas que querem que o mundo seja mais justo e igual para todos, acabando com os templários e suas alianças com donos do poder, assim eles acham que Londres será uma cidade livre. E hoje vocês acham que concordariam com a liberdade, a justiça e a igualdade que Jacob e Eve Frye buscam? Bom, essa resposta não posso dar por todos. Mas posso imaginar que no mundo que vivemos hoje os bons samaritanos no jogo seriam considerados terroristas, e você provavelmente concordaria com a imagem negativa que a mídia passaria deles.

E essa realidade não está presente apenas em Syndicate, mas praticamente em todos os jogos. Essa abordagem “sociedade preto no branco”  também está explícita em Assassin’s 3 e Assassin’s Revolução Americana. A marca da Ubisoft, pelo menos nessa franquia, sempre buscou mostrar o ponto de vista dos chamados “vencidos da história”, ou seja, aqueles que geralmente não saem nos livros de história. Caso dos índios, os operários, as mulheres e até mesmo as crianças. E no contexto em que vivemos um mundo cada vez mais individualista, às vezes analisar e aprender com uma perspectiva de um ponto vista diferente do que comumente ainda aprendemos, nem que seja de forma distorcida, faz com que possamos praticar nossa empatia com o que nos é diferente. Faz com que observemos que nossa história não são apenas bicolores, uma espécie de “o bom e o mal”, e sim, um arco íris inteiro de caminhos ainda não desbravados e não percorridos esperando serem conhecidos.

 


 

Bruna AlvesBruna Alves

Mãe, Historiadora, gamer, eclética e outras definições ainda há descobrir.

“Bons jogos não são apenas passatempos há sempre uma boa história pra refletir”