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No começo do texto anterior foi feito um breve comentário sobre a preferência de gênero dos personagens que o autor criava em suas aventuras. Explicitou-se, ainda que brevemente, os motivos pela escolha rotineira e o efeito de estranheza que a inversão da regra normativa causa dentro e fora dos quatro cantos da tela.

De onde vem essa estranheza então? A resposta pode ser bem simples e estúpida, como: Há uma mulher onde “não deveria existir”. Também pode ser complexa e problematizada ao passo que se estuda as motivações, e motivadores, ideológicos que estão intimamente ligadas à questão da objetificação feminina no âmbito social e virtual.

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Quiet e sua avançada camuflagem natural. Uma simples racionalização da sexualidade?

O extenso debate sobre o tema já é conhecido. Talvez este artigo não seja sequer relevante, mas há a necessidade de se discursar sobre as aparentes conquistas do movimento feminista no âmbito do entretenimento e a laceração mental que surge da reatividade de certos agrupamentos sociais contrários à causa.

Um dos pontos mais contundentes do discurso feminino atual foi o de poder sobre o corpo. É importante fazer notar que o corpo não é somente o inverso da mente, o elemento humano que sofre de privações físicas e de desejos impensados. Não é, portanto, somente uma massa palpável de carne vulnerável à montagem de um teatro para ser visível, ou invisível, à sociedade. O corpo transcende estes limites físicos e torna-se um espaço para a ação política, o controle pérfido da sociedade.

Em seu livro “Gênero, Corpo, Conhecimento”, Susan Bordo e Allis Jaggar discorrem sobre como o corpo humano torna-se um ambiente de modelagem e controle.

“De forma banal, através das maneiras à mesa e dos hábitos de higiene, de rotinas, normas e práticas aparentemente triviais, convertidas em atividades automáticas e habituais, a cultura “se faz corpo” como coloca Bourdieu.”

(JAGGAR, Allis; BORDO, 1997, p. 19).

Trocando em miúdos, o corpo é constantemente submetido a regras, a doutrinas, a um controle ininterrupto no qual o indivíduo não tem consciência de sua existência, ou não se quer questionar sobre, mas que se sujeita por pressões sociais e econômicas. Há pelo menos duas estruturas básicas e introdutórias dessa submissão ininterrupta, que variam de escala e local. O início primordial dá-se em uma instituição que tende a falência, a família, transveste-se logo após em uma instituição que há muito vem sendo lapidada para a boa formação social, a escola. Estes dois dispositivos primários de coerção e controle dos corpos lançam base para a perpetuação, ou inserção, de políticas e ideologias em um corpo social deveras heterogêneo. Eles agem como dispositivos retro-alimentadores que desenvolvem e necessitam da normalização para coexistir em sintonia com as estruturas que os constroem. Ambiente de trabalho, acadêmico, social, virtual, dentre outros, necessitam da normalização dos corpos presentes para o bom funcionamento dos mesmo.

É importante fazer-se notar o papel do poder sobre o corpo feminino. Michel Foucault abre para discussões o conceito de poder como uma teia de práticas, instituições, ideologias e políticas que gerem certos grupos sociais.

“Temos primeiro que abandonar a ideia de que o poder é algo possuído por um grupo e dirigido contra outro e pensar, em vez disso, na rede de práticas, instituições e tecnologias que sustentam posições de dominância e subordinação dentro de um âmbito particular. Em segundo lugar, necessitamos de uma análise adequada para descrever um poder cujos mecanismos centrais não são repressivos, mas constitutivos.”

(JAGGAR, Allis; BORDO, 1997, p. 21).

Então, ao invés de manter o poder centrado em somente uma figura patriarcal – o monarca, o pai, o presidente – ele manifesta-se por um longo entrelaçamento de relações, expressas, por sua vez, de forma espontânea ou elaborada, que será nutrido por este mesmo poder para fortalecer um comportamento desejado para o corpo feminino. Para exemplificar, uma mulher era tida como bela há alguns séculos caso tivesse o corpo ideal para procriar. O conceito de beleza feminina, entretanto, transformou-se e em nossa sociedade o padrão atende ao fisiculturismo, aos músculos bem definidos e sempre à mostra para os olhares incansáveis de todos os humanos. Esse padrão em vez de remeter a fertilidade, remete ao poder físico.

Mas quem definiu esse conjunto de diretrizes comportamentais? Certamente não foi uma pessoa com poderes absolutos para tal, mas uma extensa relação de dominação e sujeição, aparentemente benéfica, das feminilidades.

Neste ponto entra o papel dos jogos, filmes, séries, brinquedos, veículos impressos, a mídia televisiva e principalmente a crescente influência das redes sociais virtuais. O entretenimento é um dos meios deveras eficazes para a difusão de ideias e dos discursos presentes em certos extratos sociais. Perceba que para a criação de uma peça visual lucrativa necessita-se agradar o público ao qual ela irá interagir. O cinema norte-americano e as mídias virtuais por sua vez foram eficazes ao difundir sua corrente política pseudo-feminista nestes produtos enlatados, propagando seu ofício de motor de doutrinação político-ideológica.

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Rey da franquia Star Wars, o símbolo criado pela indústria de entretenimento da mulher forte. É somente de símbolos que precisamos?

A proliferação de personagens e símbolos advindos do entretenimento é notável. Dentre eles temos Rey, personagem principal do filme Star Wars. Rey tornou-se, em poucas semanas, símbolo da “causa feminista” para muitos militantes virtuais e expoente de uma ideologia que deturpa as potencialidades do poder e mascara seus interesses econômicos e doutrinários nas jovens ao qual interpretam o filme como um grito pela liberdade. Dois momentos são necessários para analisar brevemente essa “liberdade exemplar” vista nos veículos de entretenimento.

A execução de determinadas ações, provocadas pelos roteiristas, revela o desejo de ressaltar aspectos que são interessantes para a mulher pós-moderna. Trata-se novamente do poder sobre os corpos. Ele se manifesta de forma sutil e perniciosa quando retira de seu discurso os “nãos” e insere somente os reforços positivos – a mulher forte, feminina, não aceita a ajuda do homem, ela é empoderada, igual e pode tanto quanto ele.

Ora, esse discurso de igualdade é um horizonte aberto para deturpações advindas do pensamento neoliberal, que tenta forçar a noção de que a mulher foi um dia inferior ao homem, mas que todos não só devem ser, mas como são iguais. Esse embuste aparenta ter um caráter socialista, comunista, mas escancara a ideologia da meritocracia quando quer convencer a todos de que todos são iguais, cabe a cada um fazer seu caminho, traçar sua estratégia para ganhar o poder e enfim ser igual aos que se chamam “bem-sucedidos”. Felizmente ninguém é igual a ninguém.

As diferenças entre os gêneros existem, são diversas que se manifestam desde o espectro biológico até o comportamental. Essas diferentes características em hipótese alguma devem ser motor caracterizador de uma negação da humilhação e abuso que as mulheres tiveram de “se acostumar” ao longo dos séculos, mas que finalmente levantam sua voz e agem contra os absurdos imposto por uma sociedade patriarcal. As diferenças, então, se caracterizam como elementos reforçadores do respeito mútuo, o respeito pelas diferenças que não caracteriza níveis ou distinções de mentes ou corpos. Não há ser humano igual, há diferenças e elas são melhores que um ser homogêneo, que pensa em tons de cinza.

A diferença de gêneros é notável no modo de dominação dos corpos. É interessante notar como o produto “mulher poderosa” vende e gera lucros para os produtores deste conteúdo. Para o público de gênero masculino a mulher estereotipada, sexualizada e que atende a seus desejos e prazeres será, talvez, suficiente para comprar o entretenimento. Abordam-se os gêneros de forma diferente e pregam serem todos iguais, há nesta locução um tom de ironia e sarcasmo.

O discurso insidioso de mulher frágil, reprimida e oprimida pelo seu próprio sexo aparenta ser heroicamente quebrado por um meio de diversão que finalmente reconhece a mulher como ser humano. Foucault, em “A história da sexualidade” lança uma luz sobre o papel fundamental dessa locução ao afirmar que:

“Esse discurso sobre a repressão moderna do sexo se sustenta. Sem dúvida porque é fácil de ser dominado. (…) Se o sexo é reprimido, isto é, fadado à proibição, à inexistência e ao mutismo, o simples fato de falar dele e de sua repressão possui como que um ar de transgressão deliberada. Quem emprega essa linguagem coloca-se, até certo ponto, fora do alcance do poder; desordena a lei; antecipa, por menos que seja, a liberdade futura. Daí essa solenidade com que se fala, hoje em dia, do sexo”

(FOUCAULT, 1998, p. 11-12).

É, portanto, conveniente aos produtores destes conteúdos vendáveis que se tome o papel de locutor desse discurso para que se alcem como heróis, símbolos, exemplos a serem seguidos, ao passo que cerceiam a riqueza e a profundidade que o discurso feminista construiu ao longo das décadas recentes.

O contraponto de Foucault a esse ponto fundamental da sexualidade que é o discurso repressivo baseia-se, dentre vários pontos, na existência da confissão, na vontade de saber, mais que nunca reforçada pelos meios digitais e pela mídia que a trata com total normalidade e pelo poder-saber-prazer.

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Laura, um ícone inverso ao de Rey. Ambos discursam sobre a mesma hermenêutica.

A mulher sexualizada em um jogo ou filme trata justamente desse desejo de confessar a sexualidade de um indivíduo ou de um coletivo. Mesmo que não ocorra o discurso direto e pronunciado sobre a sexualidade por parte do jogador, a ação de concordar ou “achar normal” demonstra como o sexo, e os gêneros, estão sempre ao alcance e presentes na rotina do ser humano. A repressão generalizada, portanto não pode ser tomada como regra normativa, mas como uma medida que mascara um desejo de gêneros e de extratos que se pronunciavam no escuro da noite.

Negar a existência da vontade da mulher e objetificá-la para o prazer exclusivo do homem aparenta ser uma leitura superficial do desejo de saber e do prazer feminino. Não somente dela, como dos tidos pervertidos e/ou libidinosos, ora erroneamente estigmatizados como homossexuais, ora como parafílicos. O desejo, portanto de se confessar, de confessar sua sexualidade, de por palavras no discurso do seu sexo encontrou-se um dia restrito ao quase mutismo, mas que demonstra ser alçado aos espaços públicos pela insistência dos grupos que levantam esta bandeira.

A expressão da sexualidade dos gêneros ou de suas parafilias, de seus desvios e seus poderes torna o discurso feminista odiado pelos reacionários que tentam negar o que o próprio viveu em toda sua vida. O lema “Meu corpo, minhas regras” causa o estranhamento e revolta por quem teme a perda do controle sobre o qual um dia talvez tenha sido sua posse. Essa subversão é benéfica para todo o corpo social, a ressalva, entretanto é quando esse desejo de emancipação é moldado por relações de poder de determinados grupos dominadores, por grupos que enxergam oportunidades de outras normalizações dos corpos individuais.

A sexualidade, portanto, se faz presente nas escolas, na família, no trabalho, no ambiente de lazer, na natureza, nos gestos, na linguagem, nos discurso, na ausência dos discursos; não há, portanto, lógica que se ponha contrária às práticas do ser humano. Fala-se de sexualidade sem falar-se de sexualidade.


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Samuel Levi
Formação em Mídias Digitais, pesquisador, leitor e integrante da UCEG
“Um carinha que lê umas coisas e escreve outras”