O natal, durante toda a década de 1980, era a época mais aguardada do ano tanto para os consumidores quanto para o mercado. Era durante essa época do ano que as vendas de consoles e jogos disparavam, e tanto crianças como adolescentes sonhavam em ganhar um videogame de natal. Porém, especificamente no natal de 82, o que era para ser o grande sucesso, acabou se tornando o pesadelo que a Atari tanto queria esquecer.

Os anos 80 sem dúvidas foram uma das década de ouro para o cinema. Quem teve o privilégio, pôde acompanhar grandes sucessos de bilheteria que marcaram uma geração, e que se tornaram ícones da cultura pop, e com os videogames não foi diferente.

Essa década para uns foi a década de ouro, para nós da américa latina, foi a década perdida. Quem também passou por uma grande crise nos “primeiros dias dos anos 80” foram nossos queridos videogames, que até então era o setor mais promissor do mercado eletrônico. E no meio de tiro, porrada e gritaria, temos o protagonista da coluna de hoje. Já não bastasse ser um dos principais causadores do crash dos videogames de 1983, é considerado o pior jogo da história e o que o levou a ser enterrado.

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Você provavelmente já deve ter assistido o filme E.T. – O extraterrestre (se não, você está perdendo um ótimo filme, já o jogo, nem tanto). Ele é um dos clássicos de Steven Spielberg, grande sucesso de bilheteria da época, que conta a história de um alienígena que se perdeu na terra após ser perseguido por agentes do governo e é encontrado por Elliott quando se escondia, que o ajuda e assim se inicia a aventura de volta pra casa (E.T, telefone, minha casa).

 

O objetivo do jogo é encontrar três pedaços de um telefone interplanetário com a ajuda de um radar (que indica a localização das peças), enquanto foge dos cientistas e dos agentes do governo. As peças são encontradas aleatoriamente em vários buracos. A “barra” energia do E.T. diminui quando ele  executa ações (incluindo movendo, teletransportar-se, ou cair em um poço, bem como levitando voltar ao topo). Para compensar a perda, é possível coletar pedaços de doces que são usados para restaurar a energia, caso o jogador colete nove estes podem ser usados para chamar Elliott ajudando-o a achar um pedaço do telefone, ou pode-se guardar os pedaços para adicionar pontos bônus ao final.

Depois que as peças forem coletadas, o jogador vai para uma área onde é possível usar o telefone, que lhe permite ligar para o planeta do extraterrestre. Quando a chamada é feita, E.T. deve alcançar a nave espacial em um limite de tempo. Então o jogo começa novamente, com um maior nível de dificuldade e mudando a localização das peças do telefone.

Dessa forma, o jogo parece ser inofensivo comparado ao estrago que ele acidentalmente causou, mas levando em consideração que a plataforma da época era um Atari 2600, onde a maioria dos títulos possuíam mecânicas bem intuitivas, talvez o jogo tenha chegado na época errada. Até então, era comum encontrar jogos acompanhado de manuais, aos quais, quase sempre eram ignorados, pois a mecânica dos jogos era tão simples quanto seus gráficos.

E.T. era sem dúvida um jogo complexo demais para poder ignorar o manual. As setas que aparecem na parte superior da tela, informando as direções em que o jogador iria quando se usasse o teletransporte, e os números na parte inferior, o que muitos achavam ser a pontuação, na verdade mostrava a energia do personagem, o que levava ao gamer over quando zerada. Além da jogabilidade complexa para o sistema, o jogo possui vários bugs. Há grandes chances de se cair em um buraco quando se usa o teletransporte, assim como também há chances de cair em um quando se muda de tela (às vezes bastava passar ao lado do buraco para cair nele). Além dos buracos serem o “calvário” do jogador, a pior parte era sair dele, pois só havia uma forma de sair dele.

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Para seguir com o sucesso comercial do filme, a Atari (que já pertencia a Warner durante o processo)  iniciou negociações com Steven Spielberg e Universal Pictures, e adquiriu a licença para produzir o jogo por US$ 20 milhões. Depois que as negociações foram concluídas, Howard Scott Warshaw (programador da Atari)  informou que o próprio Steven Spielberg lhe pediu para ser o desenvolvedor, e que o desenvolvimento era para está concluído até 1 de setembro para, cumprir um cronograma de produção para o feriado de Natal. Embora Warshaw passou mais de um ano trabalhando em uma agenda de desenvolvimento para jogos, ele viu a oferta com um desafio de completar um jogo em um curto espaço de tempo.

Warshaw e outros executivos inicialmente apresentaram o conceito de quatro ideias (caminho objetivo, o mundo, alcançar o objetivo e obstáculos) a Spielberg, que não expressou entusiasmo, em vez disso, ele lhe pediu para criar um jogo semelhante ao da Namco, Pac-Man. Ele prosseguiu com seu conceito, que ele acreditava que iria capturar o sentimentalismo que ele viu no filme original. Já a Atari, com pressa para o natal, antecipou as vendas se baseando na popularidade do filme, bem como a estabilidade que da indústria de videogames estava experimentando em 1982. Devido a limitações de tempo, a Atari decidiu pular a fase de testes do jogo, o que poderia ter “salvo” tudo.

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As antecipações para o lançamento do jogo fizeram com que ele se tornasse um dos presentes de Natal mais procurados. Em dezembro de 1982, o The New York Times relatou que jogos baseados em filmes de sucesso se tornariam “uma fonte cada vez mais rentável” para desenvolvimento de jogos eletrônicos. No princípio, os varejistas pediram por mais suprimentos do que era o previsto para ser vendido, em contrapartida, a Atari começou a receber um número crescente de cancelamentos de pedidos, devido aos novos concorrentes que entraram no mercado, um evento que a empresa ainda não tinha experimentado. Em 1 de novembro de 1982, a Atari informou que estariam cancelando contratos, e que eles seriam estabelecidos com distribuidores selecionados, pois não estavam dando conta da demanda de cancelamentos.

E.T se resumiu apenas como sucesso comercial inicial. Ainda conseguiu ficar entre os quatro primeiros jogos na lista dos 15 mais vendidos, de acordo com revista Billboard, entre dezembro de 1982 e janeiro do ano seguinte. Apesar dos 1,5 milhões de unidades vendidas, os varejistas tiveram que usar a arte da “palavra de boca” para vender seus estoques, em meio de várias devoluções e reclamações dos clientes, dizendo que as crianças choravam de frustração devido a dificuldade do jogo.

Agora a Atari passava por uma grande crise financeira, após o grande investimento feito para adquirir os direitos para produzir o jogo. A empresa possuía um grande estoque de cartuchos, independente do sucesso que o E.T. tinha feito no princípio. Vários varejistas reportaram o baixo número de vendas em relação ao esperado, o que gerou um efeito negativo de oferta e demanda, e com solicitações a preços baixíssimos pelos comerciantes. Logo, o boato de que a Atari possuía em estoque mais cartuchos do que havia vendido se espalhou.

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Com dívidas, um estoque cheio de cartuchos novinhos e um recém lançado Atari 5200, a empresa não teve condições para dar suporte aos seus dois consoles, os computadores Atari de séries 400 e 800, e uma linha de arcades. Juntamente com a saturação do mercado, com diversas novas marcas e empresas entrando no setor e com a falta de controle de qualidade dos jogos que eram produzidos, ocorreu o crash dos videogames de 1983, onde o mercado sofreu uma grande recessão e os consumidores começaram a apostar nos computadores pessoais.

Em 1983, o jornal Alamogordo Daily News de Alamogordo, no Novo México, noticiou que a Atari teria feito uma  transação com a empresa do aterro sanitário municipal, a respeito de um material que seria compactado e enterrado no local, por cumprir com a exigência de enterrar seu “lixo” à noite, quando não se permitia a entrada de catadores. A Atari teria declarado que o motivo seria a mudança de seus jogos do Atari 2600 para Atari 5200, o que foi posteriormente negado por um funcionário da empresa. Em setembro do mesmo ano, a United Press International divulgou que havia pessoas supervisionando a operação que inclui cartuchos de jogos populares, como E.T. e Pac-Man, além de consoles.

Em 2013 a Microsoft patrocinou uma escavação no deserto do Novo México, que foi usada como material para um documentário que iria contar sobre, o que seria, o maior mistério da história dos videogames e assim por um fim a saga do jogo E.T. No dia 26 de abril do mesmo ano, foram encontrados vários cartuchos que haviam sido enterrados a mais de 30 anos. Estima-se que a Atari teria enterrado 3,5 milhões de cartuchos do E.T. e 5 milhões de cartuchos de Pac-Man. E o que era pra ser o natal mais memorável da história dos videogames, acabou se tornando a vergonha que todos queriam enterrar.

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Dados técnicos:

  • E.T. the Extra-Terrestrial
  • Gênero: Aventura
  • Desenvolvedor: Atari
  • Publicação: Atari
  • Plataforma: Atari 2600
  • Lançamento: Dezembro de 1982

 

E ai galera, deu pra sentir um pouco do drama que o E.T. sofreu pra voltar pra casa? A UCEG deseja à todos um ótimo natal (com muito joguinhos) e até a próxima!

 


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Vívian Kim
Level designer de jogos e cientista de coração, apaixonada por videogames e cultura nipônica.

“Os videogames são como café para alma.”