Ideias em Jogo Topo Entrevista Jan 2017

(Foto: Miguel Toninato)

O papo dessa vez é com o Edson Godoy, idealizador do Video Game Data Base. Ele é natural de Campo Grande – MS, 36 anos, é servidor público há mais de 12 anos e um apaixonado por games desde os cinco anos.

Colecionador há 18 anos, possui mais de 60 consoles e 5 mil e quinhentos jogos, sendo que 99% deles estão completos (caixa e manual).

UCEG: Você se considera um gamer? Desde quando veio seu interesse por jogos eletrônicos?

Edson: Gamer de corpo e alma, jogo desde bem pequeno. Tinha uns cinco anos (eu acho) quando minha família comprou nosso primeiro console, um Odyssey da Philips (conhecido lá fora como Odyssey²). E na minha família o videogame funcionava exatamente como nas propagandas da época: juntava todos os familiares para jogar ou assistir. Era realmente um momento mágico.

UCEG: “Os games retrô estão na moda”, você concorda com essa frase? Como você vê o conceito de colecionismo relacionado a games e a “moda” dos jogos retrô?

Edson: Concordo sim. Na verdade não só os games. Vivemos uma onda retrô em diversos segmentos. TV, moda, música, cinema. Nada escapa. No caso dos games, essa valorização do retrô deu destaque ao colecionismo, e que ficou mais em evidência. Mas temos que ter em mente que ele existe por aqui há muito tempo. Eu comecei a colecionar em 1998. Antes de mim já existiam vários colecionadores que também se dedicavam fortemente ao hobby, como o saudoso Norian e toda a galera do Canal 3. Então a gente conclui que a “moda” serviu para popularizar o colecionismo, levar essa mania para mais pessoas. O interessante é que até mesmo os mais novos, que não viveram essa época, entraram na onda e começaram a colecionar. Isso é algo bem interessante, pois desperta nos mais jovens a curiosidade sobre as raízes do videogame, o que aumenta a força daqueles que desejam preservar e cultivar a história desse incrível objeto de entretenimento.

UCEG: Como veio a ideia de colecionar consoles e artigos relacionados a videogames?

Edson: No final de 1996 eu havia vendido o console que tinha na época, um 3DO. Queria me desligar de tudo para poder me concentrar no vestibular e nas decisões que teria que tomar dali em diante. Então conheci os emuladores em 1998 e a paixão pelos videogames voltou com tudo. No mesmo ano abri uma loja de videogame na minha cidade natal (Campo Grande/MS) junto com um amigo e comecei a correr atrás de jogos que fizeram parte da minha história e também aqueles videogames que eu queria muito ter na época, mas que por uma razão ou outra não foi possível, como o Atari Jaguar. E foi aí que comecei a investir com seriedade nesse hobby incrível de colecionar videogames e seus jogos. De lá para cá não parei mais.

fotoEdson01

(Foto: Miguel Toninato)

UCEG: Você conhece muitos colecionadores no Brasil e no exterior. Você acha importante o contato com eles? Como você vê o mercado de retrogames por aqui e lá fora? Há uma certa disputa no Brasil?

Edson: Conhecer outros colecionadores é muito importante, não só para conseguir obter mais itens para a coleção, mas, sobretudo, para trocar experiências e conhecimento. As amizades que fazemos nesse meio são incríveis, e o mais legal é que elas geralmente começam em um meio virtual como a internet e chegam à vida real também, através dos encontros de colecionadores. Sobre o mercado, vou voltar um pouco à pergunta anterior que falou sobre a onda retrô. Essa onda tem benefícios e malefícios. Ao mesmo tempo que é boa por introduzir novas pessoas ao hobby, é ruim porque inflaciona os preços. É algo natural, na medida em que a procura pelos itens aumenta. E é engraçado que esse é um fenômeno mundial. Os preços subiram em todos os países. Quanto à disputa, é natural existir uma certa competição. Afinal, o ser humano tende a ser bastante competitivo e é importante que se mantenha em um bom nível, é o que costumamos ver por aqui. Dificilmente vemos colecionadores se estapeando por aí. A grande maioria tem consciência de que isso é um hobby e que o mais importante é se divertir.

UCEG: Vamos falar um pouco do VGDB (Video Game Data Base). Qual a proposta e como surgiu a ideia?

Edson: A proposta dele é ser um museu virtual brasileiro dos videogames. Eu sempre fui aficionado por bancos de dados, e como colecionador de games, sempre pesquisei nos bancos de dados gringos. Eu acessava sites como Atari Age e Gamefaqs diariamente. Percebi então que não tínhamos nada do tipo por aqui, e muitas vezes as informações que eu buscava nesses sites eu não encontrava. Porque colecionar não é só sair comprando tudo o que se vê pela frente. À medida que o hobby cresce, o trabalho de pesquisa do colecionador também aumenta, e esses sites facilitam muito o trabalho, para que você saiba o que buscar. Então vi que era necessário que tivéssemos um site assim aqui no Brasil, que além de trazer as informações em português conseguisse também ouvir o gamer brasileiro, e se adaptar às suas necessidades. É o que estamos implementando aqui desde dezembro de 2014, quando o site nasceu. Hoje temos quase 4 mil jogos cadastrados para quase 80 consoles. No site as pessoas encontram informações como para quais consoles aquele jogo pesquisado foi lançado: Data de lançamento, fotos e vídeos dos jogos. Dá um trabalhão, mas é bastante gratificante, principalmente quando recebemos o feedback dos usuários sobre como o site lhes ajuda à conhecer mais sobre a história dos videogames.

UCEG: Sobre a cultura de jogos eletrônicos no Brasil, você acha importante que os games sejam melhores vistos no nosso pais? Acha que aquela visão que nossos pais tinham que “tudo é joguinho” ainda existe? O que é necessário para mudar e o que o VGDB tem feito para contribuir com o cenário de games no Brasil?

Edson: Sem dúvida o Brasil ainda tem muito a evoluir no quesito cultural dos videogames. Para muitos a ideia de que é “tudo joguinho” ainda prevalece. Só que a própria indústria dos videogames vem impondo o contrário. É a maior indústria de entretenimento do mundo, movimentando bilhões de dólares todos os anos, e o país não tem como ficar indiferente a isso. Uma das coisas que mais atrapalha esse crescimento interno é o custo no Brasil, que dificulta a vinda de empresas do ramo para cá. O tratamento institucional brasileiro aos videogames ainda é muito maléfico. Tem que ser reconhecido de uma vez por todas a carga cultural dos videogames, que sem dúvida é uma das formas mais ricas de expressão artística do homem. O Video Game Data Base busca sempre fomentar essas ideias, valorizando esse lado histórico-cultural, que é a raiz da nossa existência. Como fazemos isso? Através principalmente da informação e da pesquisa, pontos chaves do nosso projeto. Aí difundimos isso no próprio banco de dados do site e também através de postagens nas redes sociais, em nossos vídeos no canal do YouTube (VGDBbr) e também através dos diversos parceiros que temos espalhados pelo país, como a própria UCEG. Outro ponto que procuramos valorizar e dar espaço sempre são os eventos relacionados à videogames e também o belíssimo trabalho que a indústria independente de jogos realiza no Brasil.

fotoEdson02

(Foto: Miguel Toninato)

UCEG: O Colecionismo envolve a questão do saudosismo. O que você acha dos “rachas” entre a galera que curte a nova geração e os retrogamers? Isso é saudável?

Edson: Colecionismo e saudosismo estão diretamente ligados, sem dúvida alguma. A nostalgia que os videogames que marcaram nossas vidas traz é algo sensacional e com certeza é o que nos faz ter esse prazer inigualável de ter e jogar os jogos antigos. Quanto aos rachas, acho desnecessários. É o tipo de conflito que começa na brincadeira e às vezes acaba mal, principalmente na internet, com os “leões do teclado” que comumente aparecem “trollando” todo mundo. Acho que todos tem o seu espaço, independente de gostar de jogo novo ou antigo. Eu sou da política de que o importante é jogar, independente do que for, e claro, se divertir, que é a essência da coisa toda.

UCEG: Você joga os consoles atuais e o que acha deles e dos jogos com relação aos antigos?

Edson: Como disse na pergunta anterior, eu jogo de tudo. Pessoal reclama que os jogos de hoje não trazem os desafios dos jogos antigos. Ok… Isso provavelmente é verdade. Mas e as outras coisas que os jogos novos trazem que os antigos não podiam fazer? É inegável que a tecnologia traz uma infinidade de possibilidade que antes não tinham como ser implementadas. Podemos concluir então que cada jogo, seja novo ou antigo, têm suas qualidades e defeitos, e que é possível se divertir com cada um deles de uma forma diferente.

UCEG: Quais seus planos futuros para o VGDB? Como andam as parcerias no Brasil?

Edson: Desde o início sabíamos que o VGDB necessitava de algo muito importante: tempo de maturação. Por se tratar de um banco de dados, não tem como o site se tornar referência da noite para o dia, pois para isso é preciso ter um banco de dados robusto, o que não é possível de forma rápida. Não estamos simplesmente copiando e colando informações da wikipedia lá. Todas as informações que são colocadas no site são antecedidas de muita pesquisa, o que leva bastante tempo. Mas a evolução do site tem sido muito gratificante. Estamos crescendo em todas as mídias da qual fazemos parte, Facebook, YouTube e principalmente o site aumentaram seu nível de acessos e curtidas em uma frequência cada vez maior. Outra coisa muito legal: cada vez mais estamos agregando colaboradores para o site. Começamos com uma pessoa na equipe. Hoje temos mais de dez realizando as mais diversas tarefas. Quanto às parcerias, nós temos orgulho em dizer que somos parceiros dos dois maiores eventos de games do Brasil: a BGS (Brasil Game Show) e o Museu do Videogame Itinerante. O Museu, aliás, está conosco desde o primeiro dia do VGDB. Além desses dois grandes eventos, temos diversos outros parceiros que nos ajudam com divulgação e conteúdo. Sozinho é impossível crescer e somos muito gratos a todos os parceiros por confiarem em nosso trabalho.

UCEG: Como você percebe o mercado de games no Brasil hoje? Realmente há um crescimento positivo nos últimos anos?

Edson: Sem dúvida há crescimento. Não poderia ser diferente, diante da grandeza da indústria de videogame no mundo de hoje. Porém ainda há muito espaço para crescimento aqui no Brasil. É necessário que as autoridades públicas acordem para esse gigante adormecido. O Brasil é provavelmente o país com maior espaço para crescimento na indústria de videogames do mundo e esse crescimento só virá quando o governo entender essa importância e esse potencial.

UCEG: Obrigado Edson!

Espero que todos tenham gostado desse bate-papo e que possamos continuar colocando as Ideias em Jogo! :)

 


Izequiel Norões
Professor, Analista de Sistemas, Diretor da UCEG e pai do Icaro.
“Jogos não são joguinhos”