(Foto:Reprodução)

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O personagem mais odiado de Star Wars não é Palpatine e muito menos Darth Vader. Se você perguntar a algum fã da franquia ele provavelmente responderá sobre aquele que não deve ser nomeado: Jar Jar Binks.

Qual o motivo então de as pessoas quererem com tanto vigor que alguém seja removido digitalmente de um filme ou de suas memórias?

Jar Jar é um clássico personagem criado para alívio cômico (ou comic relief em inglês), ele é inserido para quebrar a tensão da narrativa com diálogos ou situações humorísticas. O problema é que para a maioria das pessoas ele é simplesmente irritante e inconveniente. Se esta for a visão que temos de um personagem, então seu propósito não foi cumprido.

O propósito original de um personagem, além da força motriz para que o enredo possa acontecer, é despertar emoções em quem acompanha sua história, é fazer com que as pessoas se identifiquem ou se espelhem nele. Nesse caso específico seu papel acima de tudo é divertir e fazer rir.

Hoje em dia, os jogos também requerem uma narrativa mais complexa, se assimilando muitas vezes ao roteiro de cinema. Graças a isso podemos analisá-los também as luzes do Monomito, descrito por Joseph Campbell em seu livro: O herói de mil faces. Em sua obra, argumenta que as histórias seguem um padrão e buscou defini-lo.

Segundo Campbell, os personagens estão presos a arquétipos, e aquele que ocupa o papel de comic relief é o Pícaro.

O papel dele é fazer rir, equilibrar a seriedade da história e por vezes quebrar o orgulho do herói. Por definição a palavra pícaro representa sagacidade e esperteza, você definiria Jar Jar assim?

Eddie Murphy. Quer dizer... Sazh (Foto:Divulgação)

Eddie Murphy. Quer dizer… Sazh (Foto:Divulgação)

Nos jogos existem Jar Jar’s? Um bom exemplo é o controverso (quase como qualquer alívio cômico) Sazh de Final Fantasy XIII(2009). Este é um tipo de personagem amado por uns e odiado em igual intensidade por outros.

Sazh é em primeira instância carismático, mas aos poucos satura com suas piadas e trocadilhos fora de hora, muitas vezes até sendo ignorado pelos outros durante as cenas, quebrando o ritmo da narrativa.

Ele até tem seus momentos e ensaia um bom desenvolvimento de personagem, porém o golpe de misericórdia vem com o fato de que, mesmo sendo um dos protagonistas jogáveis, sua existência não influencia nos acontecimentos gerais do fim do jogo.

Em contrapartida temos Yomi do jogo Terranigma(1995), que junto ao protagonista Ark, é peça chave no desenvolvimento do enredo do seu início ao fim.

(Foto:Reprodução)

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O pícaro é versátil e pode assumir outros papéis como herói ou até vilão. Portanto, é um grave erro criar um personagem com apenas essa finalidade, deixando-o raso e sem desenvolvimento.

Podemos lembrar de um dos mais amados personagens da saga literária Os heróis do olimpo de Rick Riordan: Leo, o pícaro que por acaso é também um dos protagonistas.

Ele é astuto, sagaz, irônico, engraçado e acima de tudo é um personagem profundo e com personalidade, cuja história evoca emoções no leitor, que o admira e acompanha sua jornada.

A personalidade de Leo cativa e cria situações que fazem rir, o mesmo vale para os droids R2D2 e C3PO que exercem o mesmo papel de Jar Jar, mas são aclamados por boa parte do público. Isso graças a sua importância no enredo e interações.

“Parece que fomos construídos para sofrer”. O humor aqui é situacional e voltado a personalidade preestabelecida do personagem (Foto:Reprodução)

“Parece que fomos construídos para sofrer”. O humor aqui é situacional e voltado a personalidade preestabelecida do personagem (Foto:Reprodução)

A diferença crucial é o fato de que suas personalidades e visões de mundo e das situações que estão inseridos, bem como suas reações, são antagônicas e expressivas, dessa forma acabam por criar eventos e diálogos cômicos. Chegamos a conclusão que:

“A personalidade cria a situação e não o inverso”

A mesma situação -estar perdido no deserto- poderia estar envolvida em tensão se o contexto e os envolvidos fossem diferentes. O fato é que R2D2 e C3PO foram realmente construídos para sofrer.

O personagem não pode se resumir a apenas um alívio cômico ou deixa de ser interessante, o primeiro passo para ser considerado descartável para o público. O desenvolvimento deve ser o mais importante antes de designarmos um papel e que tipo de humor será ancorado a sua personalidade. Suas interações com o mundo ao redor criam o efeito cômico e mantém-se a visão de que o personagem é mais do que é mostrado na tela.

Se Sazh tivesse alcançado todo seu potencial seria muito mais bem aproveitado, por isso, ao criar seus personagens não os limite e deixe-os ser o máximo que puderem ser.

Mas, afinal, o que é humor? A definição que mais se encaixa no que tratamos é a de que humor é a qualidade do que é divertido ou cômico, a capacidade de fazer rir e criar boa disposição. Entretanto é um conceito muito subjetivo, o que pode ser engraçado para um pode não ser para outro. Apesar disso muitos teóricos tentam definir os elementos que o compõem e estudar quais recursos podem ser incorporados à narrativa para criar o efeito de comédia.

Vamos conhecer os principais:

Entender a referência é um ato de Reconhecimento (Foto:Reprodução)

Entender a referência é um ato de Reconhecimento (Foto:Reprodução)

  • Surpresa: Vem do inesperado, do susto, do desvio de foco, da contradição, da quebra de expectativa e do absurdo.
  • Reconhecimento: Utilizado nas paródias e sátiras, usa de estereótipos, de exageros dos elementos do dia a dia e da percepção de elementos que nos são familiares.
  • Superioridade: Vem do sentimento de sentir-se superior ao personagem, tomando-o como estúpido com base nos preconceitos em nossa mente. Acontecimentos geralmente previsíveis. “Vergonha alheia”
  • Rebeldia e Agressividade: Humor negro e ácido, palavrões, ironia, sarcasmo e escárnio, assistir o sofrimento ou inferiorização de outro ser, muito utilizado no humor pastelão junto ao elemento da superioridade.
  • Vulgaridade: Vem dos comportamentos inapropriados do personagem, do sexual e do obsceno.
  • Hostilidade: O reconhecimento de sua própria má situação, de externar preconceitos, de se sentir inferior, o famoso “rir pra não chorar”.
  • Ludicidade: Estilo com o claro foco de fazer rir, elevar o estado de espírito e divertir com piadas, trocadilhos, bordões, etc.

A verdade é que não existe um tipo de humor certo ou errado, mas, sim, o mais adequado para a situação e para o público. Além disso, seu jogo não precisa ser uma comédia para valer-se destes recursos, que podem sim ser incorporados ao gameplay, criando novas experiências divertidas e cômicas. Exemplificando com o minigame de Quina em Final Fantasy IX(2000).

(Foto:Reprodução)

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O filme italiano La vita è bella(A vida é bela) de 1997 é um exemplo de como podemos associar comédia e drama em uma mesma obra, iniciando com humor pastelão e se desenvolvendo em uma emocionante história.

Não é proibido e é uma ideia interessante, inclusive, mesclar vários tipos de humor e de elementos de narrativa cômicos para criar o efeito desejado no jogador.

Então se me permite complementar o título, ser idiota não significa NECESSARIAMENTE ser engraçado já que isso depende do público alvo e do gênero da obra, nesse caso se seu objetivo não é um humor pastelão, por exemplo, um personagem tapado irá parecer deslocado e fora do seu lugar.

Lembre que não existe uma fórmula pronta para a criatividade, mas, estude os jogadores e seu próprio jogo, incorpore seu humor e combine-o bem com a jogabilidade para que não tenhamos mais um Jar Jar Binks.

 

Referências:

 

 


14895436_1189108631159470_1658788178_oMatheus Serafim
Estudante de Jogos Digitais e Gamer de coração.
“Jogos são a experiência audiovisual mais completa e interativa já criada”