Meu favorito desse top 10, sou fanboy mesmo (Foto: Nintendo Blast)

(Foto: Nintendo Blast)

Quem acompanha a coluna sabe que eu falo bastante de um RPG chamado Earthbound, mas, o que faz dele um jogo tão especial? Buscando responder esse tipo de pergunta, estou trazendo essa nova série de posts de jogos que talvez você não conheça, mas que merecem parte do seu tempo.

Vamos falar desde ambientação e enredo até mecânica e game design, fazendo assim uma verdadeira viagem ao universo dos jogos trazidos aqui. Pronto para essa aventura? Pegue seus suprimentos e vamos lá!

Antes de tudo precisamos conhecer um pouco da história. Em 1989 foi lançado no Japão o primeiro jogo da série Mother, dirigido por Shigesato Itoi. Este RPG desenvolvido pela APE e lançado para Famicom era algo bem diferente dos jogos do gênero lançados até então, com o velho sistema de batalhas em turno de clássicos como Dragon Quest, mas com uma ambientação completamente diferente baseada nos Estados Unidos dos anos 90. Conseguir lançar uma proposta tão arriscada não foi fácil, porém, após inúmeros pedidos de Itoi, foi-lhe concedida uma equipe de produção. Até seu nome carrega inovação, segundo seu criador, o título era algo não antes visto em séries de videogame, além de ser uma referência a uma música do qual gostava. O jogo apenas chegou ao ocidente recentemente, em 2015, no virtual console do Wii U.

O jogo vendeu muito bem e devido sua boa recepção, acabou ganhando uma continuação, chamada  Mother 2, lançado em 1994 no Japão e o único a ser distribuído no Ocidente na época, em 1995, chamando-se Earthbound. Entretanto, sua recepção não foi muito boa por aqui, apostando em um marketing no mínimo inusitado, as vendas não foram muito altas. Anos depois ele ganha o status de clássico cult, todavia, ainda assim as vendas baixas impediram que sua sequela Mother 3 viesse para este lado do planeta.

Eu compraria (Foto:Divulgação)

Eu compraria (Foto:Divulgação)

A beleza da série Mother está na transgressão, em uma época em que mudar todo o conceito de RPG que se tinha era uma estratégia muito arriscada, poções foram substituídas por hambúrgueres, espadas por tacos de baseball e dragões por hippies fora de controle.

A história do jogo é simples, porém, contada de maneira despretensiosa, ela funciona. No ano de 199X, próximo da calma cidade de Onett, um meteorito cai do espaço. O som do impacto acordou todos ao redor, incluindo o protagonista, Ness, que embora pareça bastante o personagem principal do primeiro Mother, não têm nenhuma ligação. Ness vai checar o ocorrido e acaba encontrando um inusitado guerreiro que veio do futuro. É dito ao garoto que para evitar a destruição do mundo pelo terrível Giygas, ele e mais três crianças, as escolhidas, devem partir em uma jornada para impedi-lo.

É dessa forma que começa a aventura, com um protagonista que não é um herói de armadura, mas um garoto comum em busca de salvar o mundo. Toda a história se desenrola de uma maneira muito interessante, se assimilando a algum tipo de brincadeira que alguma criança com muita imaginação, amigos e um grande parque poderia pensar. Uma história para crianças, contada para adultos também.

O jogo é visualmente bonito e colorido, com um ar bem infantil, que desaparece completamente nos últimos minutos de gameplay, substituído por algo no mínimo perturbador. Aí podemos observar o ápice da divisão entre os dois pontos de vista que se pode analisar seu enredo. Entre seu tema leve, encontram-se também assuntos mais adultos, como o culto religioso de Happy-Happy Village, o treinamento de Poo ou até o amigo homossexual de Jeff que não sabe se um dia voltará a encontrá-lo, em uma época em que assuntos assim não eram discutidos abertamente. O próprio encontro com Gyigas é repleto de simbologia e um clima tenso assume, contrastando com a felicidade anterior.

Com apenas poucas linhas você já sabe tudo que é necessário sobre cada personagem (Foto:deerkittens on DevianArt)

Com apenas poucas linhas você já sabe tudo que é necessário sobre cada personagem (Foto: deerkittens on DevianArt)

Um dos principais pontos a se observar é a mistura entre realismo e absurdo presentes durante toda a experiência. Ao passear por cidades e ruas que nos seriam familiares encontramos OVNIs desgovernados, enfrentamos policiais dançarinos (longa história), zumbis e inúmeras situações inusitadas. Esse contraste é algo divertido de se ver, porém, não quebra a imersão, ponto muito importante em Earthbound.

Aqui, a imersão é priorizada até o fim. O dinheiro das batalhas vem de depósitos feitos por seu pai quando você liga para ele a fim de salvar o jogo, que poderá ser retirado em caixas eletrônicos. Seus amigos fora de combate são levados para um hospital e Ness sente até saudades de casa. Além disso, uma novidade para RPGs até então: um sistema de mapas contínuos, sem mapa mundi entre eles, permitindo que você tenha uma experiência ininterrupta.

Você também pode tomar seu tempo e explorar as cidades sem seguir a história principal, pois há bastante o que ver e pessoas para conversar. Os lugares estão cheios de situações engraçadas, piadas, paródias e quebras da quarta parede de maneira muito divertida e bem humorada. A trilha sonora de cada lugar é ótima, ponto essencial, visto que demanda muito tempo em cada cidade ou mapa para descobrir o que fazer em seguida e prosseguir.

Esse simpático fotógrafo irá guardar lembranças dos lugares malucos que você visitar (Foto:Reprodução)

Esse simpático fotógrafo irá guardar lembranças dos lugares malucos que você visitar (Foto: Reprodução)

Na questão de gameplay, o jogo ainda traz inovações que, até hoje, são de certa forma únicas. Um bom exemplo é a maneira que a saúde da equipe é adicionada ou subtraída durante as batalhas, na forma de um contador que gira aos poucos adicionando ou removendo pontos de vida, então, se você for rápido o suficiente poderá se livrar de um golpe fatal.

Earthbound ainda abandona o sistema de encontros aleatórios de seu antecessor, agora com inimigos no mapa que você pode tentar correr ou batalhar se preferir, além disso, ao tocar o sprite da criatura pelas costas você terá direito a um ataque surpresa e vice-versa. Também é permitindo que você perceba sua evolução, inimigos muito fracos irão até correr de você e mesmo que você resolva enfrentá-los, a batalha irá se encerrar automaticamente, poupando muito tempo.

Apesar de tudo isso, o sistema de batalha não traz muito de novo com o velho sistema de turnos e em primeira pessoa. O mais legal são os ataques hilários e inimigos estranhos, além disso, cada personagem tem sua própria árvore de habilidades PSI, tornando cada um útil de sua maneira. Até Jeff que não possui tal habilidade tem a adicionar. Os textos das batalhas podem se tornar cansativos caso você não tenha escolhido a velocidade de texto rápida, porém, continua importante prestar atenção nas informações ali descritas.

Outro problema é o menu de ação. Fazendo um mau uso dos botões do SNES, ao tentar interagir com uma pessoa ou objeto, você é redirecionado a um menu com seis opções, que pode ser irritante para quem ainda não está acostumado com os comandos do jogo. Este problema foi resolvido em seu sucessor, Mother 3.

O sistema de inventário encontrado nesse menu pode ser um problema também, o número limitado de itens que cada personagem pode carregar resultará em tomar um certo tempo para organizar seus inventários e equipamentos como todo RPG.

O jogo também nunca se tornará fácil, sendo sempre um desafio, o problema talvez seja a sua dificuldade inicial desencorajadora que requer muito treinamento. Para compensar isso, após ser derrotado (o que vai acontecer com frequência), você não será redirecionado para um Game Over, mas poderá continuar sua aventura sem perder sua experiência e itens. Apesar da dificuldade, é recompensador chegar ao fim do jogo e se sentir desafiado até o final, nunca sendo uma experiência maçante.

Infelizmente não há o que fazer após terminá-lo, e não há um grande número de recursos adicionais e opcionais durante a história principal, no entanto, cedo ou tarde, todos nos pegamos cantarolando a música de Onett e sentindo saudade desse maravilhoso jogo, eventualmente voltando a jogar.

Enfrentar criaturas lovecraftianas do apocalipse e rir com referências musicais dos anos 90 são coisas que acontecerão com frequência (Foto:Reprodução)

Enfrentar criaturas lovecraftianas do apocalipse e rir com referências musicais dos anos 90 são coisas que acontecerão com frequência (Foto: Reprodução)

Earthbound é um jogo incrivelmente único e que até hoje traz lições importantes para quem busca desenvolver jogos sobre não ter medo de arriscar e ainda é divertido para qualquer um. Se está buscando se divertir com um RPG, este é o jogo para você, com certeza não encontrará uma aventura igual. Durante todo o tempo é possível perceber que este é um game feito com muito carinho e amor pelo trabalho, por pessoas dedicadas e inovadoras que deram seu precioso tempo para tornar isto real, e olhando para trás por todos os lugares que visitamos durante essa aventura, nos resta o sentimento de gratidão pelo serviço dessas pessoas que influenciam e encantam jogadores até hoje, como é o caso de Tobi Fox, criador de Undertale e fã de carteirinha da saga.

 


14895436_1189108631159470_1658788178_oMatheus Serafim
Estudante de Jogos Digitais e Gamer de coração.
“Jogos são a experiência audiovisual mais completa e interativa já criada”