(Foto: Divulgação)

Vale mencionar que eu adoro o estilo de arte do jogo(Foto: Divulgação)

Persona é uma série spin-off da série de jogos Megami Tensei, produzida pela Atlus e relativamente popular no Japão. Em 1996, foi lançado para PS1 o jogo Revelations: Persona. Seu sucesso levou outros dois títulos a serem lançados no Japão para a mesma plataforma. Anos depois, em 2006, foi lançado para PS2 o jogo Persona 3, que veio para o ocidente no ano seguinte.

O sucesso de Persona foi o estopim da consolidação de Megami Tensei no ocidente, levando mais pessoas desse lado do globo a conhecerem a série aclamada da Atlus. A própria empresa chegou a lançar diversos spin-offs da série Persona e participou ativamente do processo de localização, garantido assim que o conteúdo original fosse preservado.

Persona 3, em específico, foi um divisor de águas que separa a série Persona dos RPGs tradicionais e seu estilo veio a ser utilizado em seus títulos posteriores. Sendo também o mais aclamado e conhecido da série, ele introduziu o sistema de simulação social, um estilo de jogo muito similar às populares visual novels japonesas. A franquia não só renovou o gênero, como também se mostra fiel às suas origens, sendo Persona 5 um dos poucos títulos atuais que ainda mantém o sistema de batalha em turnos.

Graças a sua natureza experimental se torna um objeto de estudo bem interessante para desenvolvedores e uma experiência divertida para os fãs de JRPGs. Dado este fato, analisaremos esse título, considerando os diversos pontos que o fazem especial e destrinchando as teorias filosóficas e psicológicas aplicadas em seu enredo em uma série de duas partes.

O protagonista descobre seu poder (Foto: Reprodução/Persona 3: The movie)

O protagonista descobre seu poder (Foto: Reprodução/Persona 3: The movie)

O enredo da série Persona se situa em um universo a parte de Megami Tensei, onde a história dessa vez foca em estudantes colegiais que têm a capacidade de invocar as criaturas da série principal.

Tudo começa em 2009, quando o protagonista retorna para sua cidade após a morte de seus pais. Neste ano, uma epidemia está se espalhando por entre os jovens do Japão. Esta, batizada de “Síndrome da apatia” faz com que os afetados percam aos poucos sua energia e motivação até um ponto de quase zumbificação em que se tornam figuras perdidas vagando pela cidade.

Durante sua chegada ao seu novo dormitório, o protagonista irá aprender sobre a verdadeira causa da síndrome da apatia; Existe uma hora entre 23:59 e 00:00, que pessoas normais não conseguem experienciar. Apenas aquelas com potencial podem experienciar esta hora negra em que criaturas chamadas sombras aparecem e se alimentam da força vital dos seres humanos.

O dormitório em questão é a fachada de um grupo de pessoas com este potencial chamado SEES, que busca exterminar as sombras e curar de uma vez o problema que afeta os jovens japoneses. Para isso eles dispõem de uma habilidade especial chamada Persona. Estas personas são, em resumo, as criaturas de Megami Tensei, que poderão ser invocadas pelos personagens do jogo.

Diferente da maioria dos RPGs conhecidos, este apresenta um cenário mais local, se passando em apenas uma cidade e não incluindo viagens pelo mundo ou recursos do tipo. Assim sendo, acompanhamos a rotina do protagonista durante o dia e batalhamos contra as sombras durante a noite.

O personagem principal é uma folha em branco, sua falta de personalidade e diálogos o torna seu avatar dentro do jogo, sendo assim você tem a oportunidade de escolher cada frase dita por ele e focar em charme, estudos ou coragem, variáveis que afetam sua relação com outros personagens. Assim é dada a você a oportunidade de vivenciar, de certa forma, uma representação da vida de um estudante japonês.

O enredo do jogo também tem muito a ver com o sistema sociocultural japonês. O cidadão comum tende a receber uma carga grande de stress e pressão desde a juventude e este fator contribui para que o Japão tenha uma das maiores taxas de suicídio, considerado um problema nacional. A síndrome da apatia, presente no jogo, é um claro paralelo entre realidade e fantasia.

Além disso, um dos segredos de seu sucesso é a incorporação de elementos ocidentais, em especial franceses. No Japão, é comum uma idealização de Paris e da cultura francesa em geral. Esta visão romântica mostra sua aparição em diversas obras e deixa um impacto muito marcante neste jogo.

Outro ponto a se levar em consideração é que o cristianismo não era tão difundido para o povo japonês, então, para algumas pessoas este, até hoje, ainda é um assunto repleto de mistério e que gera curiosidade. Assim como obras similares ao anime Evangelion, Persona 3 está repleto de simbolismo cristão. Tomando como exemplo a temática da ressurreição, o símbolo da cruz e o personagem Takaya, do qual falaremos com detalhes em breve. Toda esse simbolismo tem algum motivo para estar lá ou é apenas uma pretensiosa tentativa de adicionar mais um ingrediente a esta salada? Seja como for, o que importa é como isto conseguiu encantar o público, tornando o jogo um sucesso.

A maneira como a história é contada é ambiciosa, mas, não grandiosa. Tem assim, um estilo de narrativa bem característico das obras japonesas e não por acaso recebeu diversas adaptações como animações, mangá, novelizações e peças teatrais. Um ponto positivo é como a interação entre os personagens é bem construída e suas personalidades bem exploradas.

Um dos problemas do enredo talvez seja como os pontos chave da história estejam distantes um dos outros em relação à narrativa. Se por um lado isso ajuda a nos habituarmos com a rotina e nos afeiçoar aos personagens, por outro torna a história dispersa, o que pode ser um problema para jogadores que passam longos períodos de tempo sem voltar ao jogo.

 

Para honrar seu estilo anime, episódio filler na praia (Foto: Reprodução)

Para honrar seu estilo anime, episódio filler na praia (Foto: Reprodução)

A história é bem contada? Sem dúvidas. Ela é temperada com porções de drama, risadas e questionamentos existenciais que a tornam uma aventura interessante. Viradas no enredo também contribuem para que essa não se torne uma experiência entediante e previsível. Entretanto, todo esse cenário construído nos deixa com uma impressão que poderia ter sido melhor aproveitado e que o potencial do universo não foi totalmente explorado. Pelo que é, talvez essa seja a medida certa de enredo para Persona 3, afinal, deixou sua marca e a vontade de retornar ao mundo do jogo para explorá-lo mais.

A trilha sonora do jogo busca trazer um estilo mais modernos para suas músicas. Isso gera uma mistura de tons interessante e diversas trilhas realmente notáveis e contagiantes. Entre a recorrente na série “Aria of the soul” que apresenta um ar mais clássico e músicas baseadas em estilos como J-pop e Hip-Hop como é o caso do tema de batalha “Mass Destruction”, Persona 3 pode estranhar aos jogadores mais conservadores de primeira, mas, apresenta uma trilha que vale a pena ser ouvida e merece o reconhecimento obtido.

Uma das trilhas mais recorrentes no jogo, o tema de exploração da torre Tartarus, tem uma ideia interessante de ser modificada conforme o jogador progride. Entretanto, essa ideia não foi bem executada. As modificações são minúsculas, a música é repetitiva e a progressão de notas, pobre. Felizmente, o jogo lhe dá a opção de selecionar alguma das músicas boas para ouvir enquanto explora o lugar. Algumas inserções de J-pop, que teoricamente funcionam bem com o estilo do jogo, poderiam ter sido melhor encaixadas e alguns toques “techno” em certas músicas são dispensáveis. Outro problema é que o tema da batalha final não condiz com o momento e talvez uma alternativa menos ousada e mais tradicional seria desejável neste momento. Em suma, Persona 3 conta com músicas de qualidade, porém, que deveriam ter sido melhor planejadas e encaixadas.

Às vezes, a simplicidade é mesmo uma melhor escolha (Foto:Reprodução)

Às vezes, a simplicidade é mesmo uma melhor escolha (Foto:Reprodução)

O ponto alto do jogo talvez seja sua mecânica. Além do conceito interessante, ele traz sistemas de jogabilidade extremamente divertidos e capazes de agradar tanto o fã tradicional quanto aqueles que buscam uma renovação do gênero. O conjunto de elementos que Persona 3 nos apresenta formam uma base sólida para horas de jogo.

Ele possui um sistema de calendário e horas básico que permite que o jogador escolha como e com quem passar o tempo após a aula, que por si só possui algumas atividades como testes e escolhas. Existem diversas possibilidades, desde aumentar sua proximidade com outros personagens até treinar seus atributos pessoais. Essa interação com os outros se converte em algo chamado Social Link. Cada SL é representado por uma carta do tarot e um NPC com o qual o jogador deve interagir para subir seu nível.

O nível dos Social Links tem influência na capacidade de fundir personas mais poderosas, que são necessárias para batalhar durante a noite na torre Tartarus. Assim, quando o dia acaba o jogo se torna um Dungeon Crawler, onde é possível explorar andares gerados proceduralmente, portanto, diferentes a cada tentativa. Esse sistema é interessante já que Tartarus é praticamente a única dungeon do jogo e impede o jogador de se habituar demais com o ambiente e forçando-o a explorar.

(Foto: Reprodução)

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Batalhar usando um time de “mascotes” não é nenhuma novidade (vide Pokémon), nem invocações em RPGs. Mas, aqui, elas ganham um novo patamar de importância. Sendo o protagonista o único capaz de possuir múltiplas personas, é essencial que o jogador monte sua estratégia que interferirá em suas fraquezas elementais e atributos de batalha. Essas invocações podem ser adquiridas após batalhas e através de fusões que lhe dão uma variedade enorme de personas para coletar e combinações para testar.

As batalhas não são meros encontros aleatórios, dando ao jogador a capacidade de correr ou surpreender os inimigos, num sistema muito similar ao adotado por jogos como Earthbound, Final Fantasy XIII e títulos mais recentes de Dragon Quest. Isso traz uma dinâmica melhor aos RPGs e é bem vindo em Persona.

O combate é excepcional, trazendo novos conceitos enquanto mantém o sistema de turnos consagrado pelo gênero dos JRPGs. Alguns problemas que podem ser comentados são que primeiramente o menu de batalha giratório pode ser um problema para os jogadores mais apressadinhos que podem se atrapalhar na hora de selecionar os comandos e além disso, buscando inovar e ter uma característica própria alguns nomes de habilidades são bem diferentes do usual e podem ter uma curva de aprendizado maior para o jogador iniciante. Por fim, numa tentativa de dar personalidade aos personagens, todos menos o protagonista são controlados pela IA do jogo e como nenhuma inteligência artificial é perfeita pode resultar em ações indesejadas pelo jogador. Felizmente, todos esses problemas foram corrigidos no seu sucessor, Persona 4, junto com novas funcionalidades interessantes.

O jogo, além de ser bastante longo, traz missões extras, um compêndio de personas para completar e um “New Game+” que estendem a jogatina por muitas horas, prendendo o jogador por um bom tempo.

Em resumo, Persona 3 é um ótimo jogo, que se preocupa com os detalhes e que eu com certeza recomendo para todos os fãs de RPG Japonês. Se você se interessou, pode se deparar com as 3 versões do jogo (Original, Portable e FES) e sugiro que jogue a FES para ter uma experiência completa, além de conteúdo extra. Se for emular, cuidado com as quedas de frame que podem ser bem comuns,

Se você já jogou Persona 3 e está interessado em uma análise mais profunda de seu enredo, não perca a segunda parte deste review(com spoilers), onde falaremos sobre os conceitos utilizados, pincelando em assuntos como filosofia e psicologia.

 


Matheus Serafim
Estudante de Jogos Digitais e Gamer de coração.
“Jogos são a experiência audiovisual mais completa e interativa já criada”