(Foto: Divulgação)

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Nessa série de posts venho tratando de jogos não muito conhecidos, mas, que merecem reconhecimento. Anteriormente, falamos sobre Earthbound, um fantástico RPG para SNES. Agora, ainda sobre o gênero e a plataforma, trataremos de Terranigma, um dos últimos títulos lançados para o console, e que infelizmente foi ofuscado por uma série de razões. Ao trazer um conceito original, torna-se uma experiência divertida que junta o melhor de RPGs clássicos como Final Fantasy e jogos de aventura como The Legend of Zelda.

Antes de tudo, falaremos um pouco sobre o contexto histórico envolvido. O jogo é o terceiro e último título da trilogia apelidada de Soul Blazer, graças ao primeiro jogo. Foi lançado no Japão em 1995, mesmo ano que o aclamado Chrono Trigger, com o nome de Tenchi Souzou (A criação do céu e da terra) pela empresa Quintet e publicado pela Enix (Atual Square Enix).

No ano seguinte, chega à Europa e Austrália com o nome de Terranigma, fazendo parte da infância de muitos por lá. Infelizmente o título não chegou ao ocidente e, além disso, por ter sido lançado já no fim da vida útil do SNES, quando o PlayStation 1 e Nintendo 64 já estavam no mercado, acabou esquecido pela maioria do público.O jogo foi lançado com muito material extra como guias ilustrados, novelização e até um mangá.

Lamentavelmente nenhum desses foi lançado oficialmente fora do Japão. Segundo a Quintet, o jogo vendeu duzentas mil cópias no Japão e foi aclamado como o melhor da trilogia por muitos. Nos dias atuais, inclusive, é quase um consenso entre os jogadores o status de obra de arte dado ao jogo, colecionando altas notas e boas avaliações.

(Foto: MangaPark)

(Foto: MangaPark)

A história de Terranigma aparenta ser bastante simples de início, sendo contada de maneira sucinta, e não difere de muitos RPGs da época, mas, logo demonstra ser muito mais profunda e repleta de significados, com uma teia de acontecimentos que se forma sem que você perceba. Seu enredo começa com o levado garoto Ark abrindo a caixa de pandora e libertando a criatura lá presa, Yomi, seu futuro sidekick. Infelizmente, isso também desencadeia o congelamento de sua vila e então é dito a ele para sair em busca de salvar seu povo.

Logo após, é revelado que o planeta é dividido em dois mundos, o da luz e o das sombras, e que Ark agora deve ajudar o mundo da luz a acordar, trazendo de volta toda a vida que se extinguiu. A grande sacada está em qual mundo estamos falando: O nosso. Terranigma se passa em uma representação do mundo real, de modo que podemos sim visitar versões de lugares reais.

O jogo é um bom exemplo do monomito de Joseph Campbell, em que o herói enfrenta estágios e conflitos descritos na obra. Mas não se engane ao pensar que Terranigma segue uma fórmula. Começando pelos assuntos filosóficos e o simbolismo, trazendo novos tópicos para a narrativa em jogos do gênero, também consegue dar uma identidade ao protagonista. Em uma era repleta de personagens mudos, Ark tem diálogos convincentes e uma personalidade com a qual podemos nos importar.

A dicotomia de luz e trevas não impede que deixemos dilemas durante a trama. Quem é o verdadeiro vilão? Quais os verdadeiros impactos de nossas ações? Alternando entre sequências eletrizantes e momentos profundos, o final de Terranigma é diferente de qualquer coisa que tenhamos visto até então.

Cada local que visitamos ao decorrer da aventura é único, trazendo seu próprio estilo, suas próprias personalidades locais e história. Você poderá viajar não só pela Europa como visitar as Américas e até uma versão alternativa do nosso Rio de Janeiro. Suas ações tem realmente um impacto nas vidas das pessoas de tais lugares e não obstante o jogo possui um sistema que permite que através de sidequests seja possível auxiliar o desenvolvimento das cidades, que mudam de acordo com suas ações. Ajudar a invenção da lâmpada, encontrar personalidades famosas como os irmãos Wrigth são algo possível nesse universo, uma experiências interessante e divertida.

Embora sua soundtrack não seja considerada tão memorável quanto os incríveis arranjos musicais de Yasunori Mitsuda para Chrono Trigger ou não podermos comparar com seu estilo de arte único, a trilha sonora também não deixa a desejar, com muitas faixas marcantes que evocam diversos sentimentos bem encaixadas, é peça fundamental na playlist de qualquer um que tenha jogado. Por sua vez, a arte não fica atrás, também consegue criar cenários lindos de se observar e personagens característicos do universo do jogo.

(Foto : Sepeb)

(Imagem: Sepeb)

O gameplay é uma grande mistura que funciona bem, os fãs de Final Fantasy e Zelda irão se dar muito bem com esse jogo. Apesar de possuir uma jogabilidade baseada na ação em tempo real, batalhando com lanças e bastões, assim como em Zelda, você também possui atributos que podem ser aprimorados conforme você sobe de nível e junta experiência. O mapa mundi, elemento clássico dos RPGs, também está presente, dessa vez sem encontros aleatórios.

A progressão de dificuldade é boa, se adequando ao nível do jogador, que pode ter alguma dificuldade em se acostumar com a jogabilidade, afinal ela permite a execução dos mais variados combos, dando diversidade de uma maneira divertida ao gameplay. Além de necessitar de atenção para atravessar os mapas, alguns desafios conseguem ser muito desafiadores (talvez um pouco demais)  necessitando de uma estratégia bem específica para passar.

O menu do jogo tem um conceito extremamente criativo e funciona como uma tela de pause também, embora a navegação nele possa ser digna de estranhamento nos primeiros minutos e um pouco chata se você está com pressa. Outro ponto a ser considerados são as Magirocks, tentativas de adicionar magias e uma jogabilidade mais estratégica, mas, que podem muito bem ser ignoradas pelo jogador, se tornando um recurso esquecível e um pouco mal aproveitado.

Quando falamos de Terranigma falamos também de viagem. Será necessário explorar bastante o seu mundo, revelar seus segredos e procurar por locais específicos se quiser prosseguir. É uma faca de dois gumes, que pode afastar jogadores mais impacientes mas também permite um melhor aproveitamento do universo criado no jogo. Ainda assim, Terranigma não peca nesse quesito, nunca se tornando entediante e podendo ser jogado sem se preocupar em te cansar.

Por não ser muito conhecido, jogadores do mundo todo perdem a oportunidade de conhecer uma obra genial, que, talvez, se as circunstâncias fossem outras teria decolado e se tornado uma franquia famosa de jogos viva até hoje. Para os curiosos, gamers e desenvolvedores, Terranigma é uma recomendação sem erro, que com certeza ganhará um espaço em seus corações.

(Foto:Reprodução)

Do cômico ao dramático – Terranigma realiza essa jornada muito bem(Foto:Reprodução)

 


14895436_1189108631159470_1658788178_oMatheus Serafim
Estudante de Jogos Digitais e Gamer de coração.
“Jogos são a experiência audiovisual mais completa e interativa já criada”