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Olá pessoal, semana passada tivemos uma pequena parada por conta da E3, mas estamos voltando com toda força essa semana com um asssunto que com certeza importa a todos da cadeia produtiva de games no Brasil.

Recentemente alguns veículos de informação noticiaram: “Mercado de games brasileiro anda na contramão da economia do Brasil“. Mas vamos observar os dados e notar informações tanto do maior polo brasileiro (eixo SP, RJ e RS) como em outros estados.
A produção nacional nos últimos anos tem crescido, e tanto o interesse de empresas como o do próprio governo tem atentado para isso. Como pudemos observar em matéria anterior que relatamos o atual posicionamento do Ministro da Cultura brasileiro, Juca Ferreira, em evento do Ministério da Cultura, afirmando o crescimento do mercado de games nacional e vendo as necessidades que este tem para continuar crescendo.

Pensando nisso, resolvi falar com alguém que conhece bem o cenário de games no Brasil e com certeza pode nos dar mais  informações. Nosso amigo, Moacyr Alves irá expor sua visão da situação atual e um panorama do que tem acontecido em uma breve entrevista:

Moacyr Alves Junior é presidente da ACIGAMES (Associação Comercial, Industrial e Cultural dos jogos eletrônicos do Brasil) é diretor acadêmico da Ilau (International Latin América University) e coordenador do curso de jogos digitais das faculdades Impacta, ganhador dos prêmios “Flor de lótus” na Índia, “honored board” pelo ministro da cultura da Itália e prêmio Aegis de “personalidade dos games do ano” já foi titular do conselho de jogos digitais pela secretaria do Áudio Visual no ministério da cultura, trabalha como representante internacional na 1080partners, empresa que tem como clientes a “Bethesda, Telltale Games e Maximum Studios e também é o Diretor de publicação para jogos na empresa Halo Digit, empresa chinesa com mais de 200 jogos lançados e com mais de 09 escritórios espalhados pelo mundo, por fim, é o curador da Campus Party Brasil na área de games há mais de 05 anos.

Ideias em Jogo: Como está o Brasil com relação a produção e venda de games no momento atual?

MOACYR: Temos duas vertentes de games no Brasil, uma para a parte digital, onde podemos colocar os jogos de PC, os tablets e os jogos mobile e a outra é a parte de games Físicos (caixas). Explicarei as duas neste caso:

Físicos: Não está nada boa, pois com o aumento do dólar temos que nos adaptar justamente aos preços novos que não são nada atrativos, muitos perguntam porque os jogos produzidos no Brasil estão tendo preços tão altos e a resposta é simples eles pagam os royalties das empresas também em dólar, sendo assim tudo aumenta.

Digitais: São por enquanto os melhores preços do mercado, mas eles não tem a qualidade de um jogo triple A como os dos consoles, então se vende muito mais, porém o jogo deixa de ser atrativo muito rápido, claro que quando você fala da opção (PC) isso modifica um pouco porque temos quase a mesma quantidade de jogos dos consoles no PC, porém, outro problema é que as placas de vídeo que fazem com que seu jogo melhore também tem seus preços em dólar e isso prejudica o mercado todo em geral.

Sendo assim e resumindo um pouco do mercado, hoje o Brasil não vive um bom momento entre a produção e a venda pelos fatores citados acima, com preços nada atrativos fica difícil fazer um mercado saudável.

Ideias em Jogo: Como a ACIGames (ou você) tem atuado com relação a dar apoio ao comércio e a produção de jogos nacional?

MOACYR: Para o comércio estamos tentando diretamente a reclassificação dos jogos como cultura o que faria a redução dos preços automaticamente, mas a dificuldade nesse termo é justamente tentar convencer nossos políticos a mudar essa classificação, porque mesmo com o novo ministro da cultura que é mais favorável aos games com diversas declarações sobre esse mercado, eles relutam em ter uma reunião comigo, mas como sempre digo sou chato e vou tentando sempre. Uma hora consigo.

Já na produção de jogos nacionais, está um pouco mais fácil porque felizmente ainda não temos as barreiras que no comércio se tem. Então fazemos mais ações pontuais com empresas como no caso da Halo Digit a qual estamos desenvolvendo em conjunto, um trabalho para melhorar a distribuição de jogos internacionalmente.

Colaboração da ACI Games

Colaboração da ACI Games no mercado nacional

Ideias em Jogo: Diante dos últimos acontecimentos que envolvem a Sony e o combate a pirataria no Brasil. Quais seriam as melhores saídas para a melhoria do comércio e o preço dos jogos por aqui?

MOACYR: Quanto a preço não tem muito o que fazer, a produção nacional mesmo sendo mais viável e evitando uma série de problemas, ainda paga royalties em dólares e o valor do dólar atualmente ainda está alto, a questão dos jogos digitais está ai e não pode ser negada, mas também são encarecidos por causa do alto valor da moeda americana. Ainda temos muito a crescer, as distribuidoras e as grandes empresas como  Microsoft e  Sony tentam fazer a sua parte. Acredito que o que o consumidor tem mesmo a fazer se quiser comprar jogos baratos é esperar a rebaixa do preço do game. Claro que se ansiedade bater forte quando é um lançamento, que a pessoa quer e  não tem como se ter um preço baixo, pois no lançamento é sempre usado o “preço cheio,” mas quando pode se esperar o preço cai consideravelmente.

Ideias em Jogo: O que aconteceu com a iniciativa Jogo Justo?

MOACYR: Ainda está firme e forte, porém com esse governo atual, que não se preocupa nada com essa área, será impossível algo acontecer, mas não tenho dúvida que consegui chegar longe nesse meio tempo:

– Colocamos games na NBS (Nomenclatura Brasileira de Serviços) no capitulo 15.
– Tivemos várias reuniões com o governo para a parte de games.
– Entramos na PAC-PME(Programa de Aceleração do Crescimento para Pequenas e Médias Empresas).
– Fizemos a única audiência pública para o setor de games no plenário em Brasília.
– Entramos no ECCA que é o fórum internacional de economia criativa.

Mesmo com todos esses avanços e reuniões, pouca coisa aconteceu de fato para a mudança de preço e auxílio para o setor, e o motivo como antes mencionado é simples: “O governo não tem nem ideia do que é o setor no Brasil e não faz questão de saber”.

Temos “simpatizantes” em cada ministério, mas eles tem pouca força para fazer realmente algo mudar o que é uma pena de todos os ministérios o mais atuante para o setor é sem dúvida o ministério da justiça na área de classificação indicativa que no ano passado mostrou vários estudos sobre o comportamento do setor.

Ideias em Jogo: É viável produzir jogos no Brasil?

MOACYR: Se você é indie sim, mas se você for viver exclusivamente disso não será nada fácil, o Brasil tem pouco apoio para quem trabalha na área e os salários não são altos para quem está começando, então eu diria que as empresas que produzem jogos devem começar como algo em cooperativo para produzir, aprender, se aperfeiçoar e depois de ganhar uma certa experiência e ai sim se lançar no mercado.

Ideias em Jogo: O que fazer para ter visibilidade como produtor de jogos no exterior? Há alguma iniciativa sua apoiando isso?

MOACYR: Primeiramente eu diria que o produtor deve se focar em qualidade, em jogabilidade, o visual bonito e no interesse do jogador que no game são as chaves para o sucesso. Vejo por um caso recente que tive na Halo onde a empresa pagou 2.5 milhões de dólares em um jogo mobile.

Ideias em Jogo: Como você visualiza o cenário de games no Brasil nos próximos anos?

MOACYR: Sempre tive uma visão otimista, mas estou vendo cada vez mais o mercado de games no Brasil inchado em todos os setores, e de certa forma isso é bom, porque no futuro poucas empresas de qualidade vão se firmar no mercado, e essas empresas serão derivadas de várias outras que eventualmente não deram certo.

Para o mercado de games físico vejo uma mudança radical, infelizmente o pequeno lojista não tem condições de competir com as grandes marcas (Lojas Americanas, Wallmart, Ponto Frio, etc) e se ele não se reinventarem vão eventualmente desaparecer. E para compreender mais sobre esse assunto eu aconselho a pessoa assistir o documentário “O alto preço do baixo custo” que explica muito bem o que as grandes magazines fazem no mercado quando entram.

Fórum do Comercio de Games

Fórum do Comercio de Games

Ideias em Jogo: Na sua concepção, onde as empresas que desenvolvem jogos no Brasil mais pecam nas etapas do processo de desenvolvimento de jogos? O problema é técnico, na gestão, publicidade ou maturidade dos games desenvolvidos?

MOACYR: Eu diria que tem um pouco de tudo, mas faz parte do processo de amadurecimento de uma empresa, eu posso citar o marketing como um dos mais críticos no começo e a falta de qualidade dos jogos como um outro ponto crítico. A primeira coisa que um desenvolvedor de games tem que olhar e se perguntar sobre o seu jogo é:  Quanto tempo eu jogaria esse jogo? Ele está realmente bom?

E depois disso, ele deve se espelhar nos jogos que fizeram sucesso e o porque desse sucesso, dai então, quando a equipe estiver 100% pronta nesses quesitos, partir para o lançamento do game.

Ideias em Jogo: Além do mercado mobile há outras possibilidades para os desenvolvedores nacionais?

MOACYR: Há várias aparecendo, as grandes empresas como a Microsoft e a Sony abriram sua área “indie” e cada vez mais aparecem ferramentas, canais e empresas querendo ajudar e a participar desse meio, nada que uma simples busca em redes sociais ou com amigos não mostre.

Ideias em Jogo: Para encerrar. O que você falaria para alguém que esta iniciando na carreira de desenvolvedor de games?

MOACYR: Primeiramente faça algo que você se orgulhe, mesmo que não de certo no começo, mas não pare até estar 100% pronto de acordo com o que você quer e coloque sempre sua paixão em seu game ou naquilo que você está produzindo, precisamos de jogos de qualidade, com trilha sonora boa e com boa jogabilidade. Depois disso não esqueça do “Network” que também é peça chave para o sucesso, uma pessoa bem relacionada e com bons contatos fazem toda uma diferença.

Chegamos ao fim da entrevista e da coluna dessa semana. Queremos agradecer ao amigo Moacyr Alves por sua disponibilidade com esse assunto e por hoje é só pessoal! Até semana que vem.