Contracapa Guerra

Fonte: Seganet

A Guerra dos Consoles, de Blake J. Harris

Os anos 1980 foram, sem dúvida, os mais importantes para a indústria dos videogames. Após uma primeira metade de década conturbada, com a ascensão vertiginosa e o crash da indústria em 1983, parecia que o futuro dos jogos eletrônicos estava a uma nota de rodapé na história do desenvolvimento industrial e tecnológico.Entretanto, enquanto as grandes fabricantes americanas amargavam dias de terror, com quedas vertiginosas de vendas e encerramento de atividades de diversos fabricantes e desenvolvedores, no Japão, a Nintendo começava a colocar as manguinhas de fora, partindo para um plano de dominação mundial.

Se no ocidente a Atari, Mattel (com seu Intellivision) e Colleco davam sinais de evidente cansaço (sugestão do autor: assistam ao documentário Atari Game Over, que apresenta de forma bastante didática este momento conturbado), a Nintendo vinha de período de grande pujança, decorrente do sucesso de seu Famicom (Family Computer), que dispunha de jogos verdadeiramente avançados em comparação a seus pares americanos.Na esteira deste sucesso, uma pequena empresa de origem americana, mas sediada no Japão, tinha pretensões evidentes de estragar os planos da poderosa Big N: a Sega.

Até o início dos anos 1980, a empresa fundada no Hawaii, ainda era bastante tímida na produção de consoles. Entretanto, com o seu Mark 3, posteriormente reformulado e relançado como Master System, começou a chamar atenção no Japão e, com isso, a Sega se viu encorajada a desenvolver de um novo console, para bater de frente coma Nintendo, o Mega Drive.

Neste caldeirão prontinho para explodir, é que temos o início do simplesmente espetacular livro A Guerra dos Consoles, de 2014.

A obra, centrada exatamente no confronto das duas maiores fabricantes do finzinho dos anos 1980 e primeira metade dos anos 1990. O foco é da chegada do Sega Genesis (o Mega Drive americano) em terras estadunidenses, em especial a atuação de Tom Kalisnke, presidente da Sega of America em seus anos de ouro.

Kalisnke, egresso da Mattel (onde foi responsável por alavancar a boneca Barbie ao patamar de marca global que é hoje) e da Matchbox (dos carrinhos de miniatura concorrentes da Hot Wheels) revolucionou a indústria por meio de publicidades audaciosas, contrato com grandes celebridades esportivas e uma atuação sem medo da manda-chuva Nintendo, que dominava, inclusive, a distribuição de consoles e jogos em terras americanas.

As soluções criativas de Kalinske e sua equipe foram de tamanha importância que, até os dias atuais, reverberam entre nós. Sem sua atuação corajosa, possivelmente a Nintendo não teria um adversário à altura para bater, com desenvolvimento de melhores produtos, e isso, poderia, em meu sentir, implicar em uma nova estagnação da indústria, repetindo os erros da Atari. Noutras palavras, a concorrência entre uma gigante estabelecida, e uma que estava ganhando corpo, foi a mola propulsora dos videogames, possibilitando uma passagem exitosa de um momento difícil (o já mencionado crash de 1983) e a pujança dos anos 1990.

Confira um dos comerciais da época:

O livro, entretanto, não se limita à batalha de Sega e Nintendo para conquista de consumidores. Também nos apresenta em detalhes, erros estratégicos de ambas as empresas que, também, repercutem até os dias atuais. Os entreveros entre Nintendo e Philips (que desembocaria no Philips CD-i), e num aproximação da Big N da Sony, para desenvolvimento do drive de CD que seria a base do Playstation, após desentendimentos entre as duas, também estão lá. Assim como os erros da Sega em insistir em add-ons para o Mega Drive (Sega CD, Sega 32x), quando já se fazia necessária a transição para uma nova plataforma, o Saturn, que também foi mal desenvolvido comercialmente.

Por essas e outras, A Guerra dos Consoles é uma obra fundamental para quem quer entender a indústria dos jogos eletrônicos. Também é um livro de aprendizado para qualquer um que queira aprender sobre desenvolvimento de produtos, enfrentamento de concorrência e de publicidade e propaganda.

A Guerra dos Consoles é uma publicação da Editora Intrínseca, com 558 páginas, encadernação tipo brochura. A edição analisada foi impressa em 2015 e pode ser encontrada em livrarias e lojas on-line com facilidade, onde existe, inclusive, a venda em formato digital.

 

Autor: Mário Coelho Bessa

Fontes:
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